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Matéria publicada no Revelação (jornal-laboratório do curso de Comunicação Social da Universidade de Uberaba) n. 235, em 17 de fevereiro de 2003

andre.azevedo@uniube.br


Mulher do Algodão aparece em banheiros de colégio para aterrorizar os pirralhos

Mulher do algodão

Uma das criaturas sobrenaturais que mais apavoraram o imaginário infantil nas escolas foi, sem dúvida, a Mulher do Algodão. Em muitos colégios da cidade a assombração ainda é popular. Há diversas versões para seu nome: Mulher de Algodão, Maria do Algodão, Loira do Algodão, Mulher do Espelho (porque ela sempre aparece, primeiro, pelo espelho), entre outros. No entanto, a personagem é a mesma. Trata-se, basicamente, de uma defunta toda de branco, com algodão enfiado nos olhos, nariz e ouvidos, que aparece em banheiros de colégio para assustar os pirralhos.

Há pelo menos duas versões para a origem da lenda. Dizem que a moça era uma aluna apaixonada por um professor que não dava bola pra ela. Desiludida, cometeu suicídio no banheiro do colégio. Desde então, vem aparecendo para perguntar pelo professor amado. Outros relatos afirmam que a estudante foi esquartejada por um psicopata que, num ritual macabro, jogou seus restos na privada.

Não se sabe direito o que a Mulher do Algodão faz com as crianças no banheiro (se é que uma defunta que aparece assim de repente precisa fazer mais alguma coisa para assustar alguém…), mas alguns relatos dizem que ela fura os olhos dos meninos, caso eles não levem algodão para ela.

O publicitário Lungas Neto afirma que, segundo a lenda, para que a defunta apareça é necessário certo ritual. Algumas versões falam em permanecer no banheiro e invocá-la três vezes. "–Mulher do algodão, mulher do algodão, mulher do algodão." Outros dizem que deve-se dar três descargas na privada. Mas os modos de invocá-la também se alternam bastante.

Lungas afirmou que, quando cursou o primário no colégio Corina de Oliveira, ninguém conhecia a lenda. "Eu que levei a história lá. Meu primo havia me contado. Espalhei no colégio todo." Segundo ele, a lenda pegou entre os colegas e todos passaram a morrer de medo de demorar muito no banheiro: vai que a desgraçada aparece! Ironicamente, o que dava mais veracidade à lenda da Mulher do Algodão era que ninguém jamais havia visto, pois moleque nenhum tinha coragem de dizer seu nome três vezes e ficar lá pra conferir.

A jornalista Celi Camargo afirmou que, em sua época de colégio Tiradentes, em 1980, a lenda dizia que nem era preciso invocá-la: a defunta aparecia, sem mais nem menos. Ela contou que, certa vez, um colega que estava de braço quebrado arrancou o algodão de baixo do gesso e espalhou tudo no banheiro. Aí, foi aquele tumulto na escola. "O pânico existia mesmo! As meninas choravam. Havia uma confusão entre verdade e ficção. A diretora e os professores foram lá ver. Foi um alvoroço." Celi tem uma hipótese para a popularidade da lenda da Mulher do Algodão: "Talvez essa história tenha surgido para limitar a permanência das crianças no banheiro. É lá que os meninos se escondem para fumar pela primeira vez, para ensaiar as primeiras experiências sexuais". Para ela, uma assombração que aparece no banheiro seria a "pessoa" mais conveniente para "vigiar" os pirralhos mais atrevidos.

Magrelo, da banda Os Kretinos, confirma as história da Mulher "de" Algodão – como fez questão de frisar. Ele conta que, nos seus tempos de grupo Brasil, nos anos 80, a defunta metia tanto medo nas crianças que uma garota, certa vez, chegou a fazer xixi nas calças por não ter tido coragem de ir ao banheiro. "Meu amigo e eu gostávamos de percorrer a sala engatinhando, para ver as calcinhas das meninas. Aí, percebemos que, em uma das carteiras, estava pingando uma água, ou sei lá o quê. Então, vimos a menina curvada, tentando limpar uma poça de xixi com um lencinho — o melhor era o lencinho". Quando a garotinha percebeu que era observada pelos voyeurs mirins, ela tapou o rosto e levantou-se, primeiro choramingando, depois chorando convulsivamente. E os dois capetas, evidentemente, passaram a cantar para a sala, às gargalhadas: "Ela mijou na sala! Ela mijou na sala!"

Desgraça pelada

Na quaresma, havia uma lenda de que, se a criança dissesse qualquer palavrão, aparecia a "Desgraça Pelada". Algumas versões mais pudicas dizem que ela aparecia atrás da porta, com a mão protegendo as partes. "Eu nunca soube o que era a Desgraça Pelada. Devia ser uma coisa muito ruim", disse Celi Camargo.

Anjos e demônios são personagens bastante presentes no imaginário infantil. Apesar de um representar o bem e o outro o mal, ambos assustavam igualmente os meninos. "Em casa éramos muito religiosos. Na hora do almoço, diziam que ficava cheio de anjos à mesa. E eu morrendo de medo de esbarrar num. Vai que eu cutuco ele, e ele cai!". Para Celi, esse temor, de certa forma, era benéfico, pois impunha disciplina nas crianças. "Tudo de errado que uma criança poderia fazer, eu não fiz, porque Deus castigava. Quando chovia, diziam: tá vendo, como Deus tá bravo? Eu pensava: "Que eu fiz para Ele ficar tão bravo assim?"


Tem gente que garante ver um diabo devorando o garoto quando o quadro é virado de lado ou de ponta à cabeça

Existe uma reprodução de um certo quadro, muito popular na decoração de casas de classe média, que há anos envolve uma aura sinistra e até hoje provoca apreensão em muitas pessoas. Na verdade, tem gente que não gosta nem de chegar perto. Trata-se de uma figura de um garoto chorando, vestindo uma pesada manta escura. Dizem que, se o quadro for virado de cabeça para baixo, ou mesmo tombado de lado, é possível enxergar a verdadeira imagem que o pintor, num pacto com o demônio, quis representar.

A fotógrafa Neuza das Graças conheceu o quadro ainda menina, nos anos 70, em uma visita a sua tia Mariinha. O quadro ficava bem na entrada da sala. Era grande, colorido, e viera de longe, contava a tia. A menina Neuza olhava intrigada: por que o menino está chorando, se ele é tão bonitinho? Então a tia contou o que sabia. "–Dizem que o autor era um pintor medíocre e mal sucedido. Ele procurava várias maneiras para ser um pintor respeitado, mas em todas as tentativas "do lado do bem", fracassava. Aí, resolveu procurar o dito-cujo, que lhe propôs um pacto em troca da alma. Aceitando o trato, o diabo, então, falou que era pra ele dormir, e o que ele sonhasse deveria pintar na tela. E o que o pintor viu, no sonho, foi justamente a criança sendo devorada pelo demônio". É por isso que a criança chora no quadro, conclui Neuza.

Maria José Ferreira de Moura, moradora do bairro Olinda, guarda uma reprodução desse quadro em casa. Ela disse que não conhecia a história, até que seus filhos comentaram com ela. Dona Maria afirma que nunca conseguiu ver nada de diferente no quadro, mas, por via das dúvidas, dependurou-o lá no quartinho dos fundos.

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