André
Azevedo da Fonseca

Marina
Colasanti: Como é que é não amar? Você
conhece alguém que nunca amou? |
É
possível ser poeta sem ter aprendido a amar?
Colasanti:
Eu não sei, porque eu sempre amei. (risos)
Mas
será que um sujeito que não ama consegue poetizar,
como o Cazuza escreveu naquela música?
Colasanti:
Como é que é não amar? Você conhece alguém
que nunca amou?
Alguém pode dizer, por exemplo, que ainda não sabe
se ama, que ainda está descobrindo o que é o amor.
Colasanti:
Então eu perguntaria: você não se ama? Você
não ama a vida? Você não ama sua mãe?
Você não ama uma criancinha? Você não
tem um sentimento de amor? Você não acorda um dia e
diz: pôxa, Deus é sensacional! Olha só que
dia que Ele fez! Não tem isso?
Então
é impossível não amar?
Colasanti:
Eu acho muito, muito difícil! A não ser por extrema
negação. Aí você tem que ter um sentimento
de intensidade equivalente, que é o ódio, que é
a negação das coisas. Mas hoje de manhã, pra
vir pra cá, acordei às quatro da manhã, peguei
um taxi às cinco e meia; e atravessamos Copacabana, depois
o Aterro, o dia nascendo. Mas era de uma beleza tão estarrecedora
que o motorista que fazia esse percurso todo dia me
disse: é muito lindo o amanhecer nessa cidade, né?
Isso não é um sentimento de amor? Acho que é!
Limitar o amor ao amor erótico, ao amor pelo outro, é
agredir muita gente que não consegue esse sentimento. É
discriminar muita gente.
Tá na hora da provocação!
Colasanti:
Provoca, provoca, aproveita que eu estou de bom humor! (risos)
Para
Schopenhauer, o fundamento do amor e da atração sexual
não passa de um instinto de reprodução. Para
o filósofo, com essas sensações, o "gênio
da espécie" nos ilude individualmente apenas para garantir
a perpetuação da espécie. O que acha disso?
Colasanti:
Em princípio está certo. Quanto mais na época
dele. Na época em que ele disse isso, que o ato sexual
o ato sexual masculino, né?, porque não havia outro
na época dele, parece (risos) ou era com prostitutas
e sem finalidade de reprodução, ou era com finalidade
de reprodução com a mulher amada. Casava-se para isso
porque havia um desejo sexual e sobretudo casava-se
por organização social visando a reprodução.
Hoje
em dia, em que as pessoas transam sem ter nem atração
sexual as pessoas estão transando não é
sem amor, é sem atração sexual, porque faz
parte de acabar a noite, é porque assim que se faz, é
porque os outros estão transando, é porque estamos
aí mesmo, é porque cheiramos um pó, não
é preciso nem atração sexual aí
o impulso reprodutor da relação sexual tem que ser
recolocado. Hoje em dia, a relação sexual é
outra coisa. Temos que reestudar, redefinir onde ficou o instinto
de reprodução, se ele está envolvido nessa
transada meio desleixada de fim de noite, com preservativos, etc.
Pra
você, a invenção da cultura abafou de vez muitos
de nossos instintos?
Colasanti:
É complicado, porque os instintos sociais, ou seja, os instintos
criados e embutidos nas pessoas pelas exigências do grupo,
são muito fortes não só nos animais,
nas comunidades de macacos, por exemplo, que têm comportamentos
diferentes de acordo com as comunidades. Então não
é um instinto, porque nasce com a pessoa e que não
está no DNA, mas é transmitido socialmente.
Schopenhauer
disse também
Colasanti:
Você gosta desse cara hein? Isso vai te comprometer no futuro,
com as mocinhas (risos)
Não
é isso (risos), eu só quero provocar sua argumentação.
Shopenhauer disse que a estupidez não é prejudicial
ao homem, e muitas vezes homens inteligentes causam até mesmo
um efeito deplorável nas mulheres, pois a finalidade do matrimônio
é a procriação, e não um "colóquio
cheio de espírito". O que acha disso?
Colasanti:
Primeiro nós não temos comprovante que os homens estúpidos
sejam melhores reprodutores. São só estúpidos.
Possivelmente tem gens horrorosos que vão transmitir às
crianças e fazer filhinhos estúpidos, ou ter mais
possibilidade de fazer filhinhos estúpidos. Se ele dissesse:
as mulheres casam com o provedor, mesmo que seja mais feio, porque
o instinto quer um provedor para alimentar os filhotes no ninho
faz sentido. Agora, essa frase solta assim é
um equívoco fatal. Também sei que existam mulheres
que preferem homens estúpidos, como existem homens que preferem
mulheres torturadoras. Existe tudo! Mas não sei de uma maioria
de mulheres que prefira homens estúpidos. Não vejo
que a estupidez tenha sucesso especial entre as mocinhas. Você
me diga, você que é homem, se elas te requisitam a
estupidez, ou não! (risos)
A última de Schopenhauer. Ele escreveu que, assim como o
leão tem os dentes e as garras, e o javali as presas, a mulher
só tem a dissimulação como arma para se proteger
e defender, que equivaleria à força da razão
e dos músculos do homem. O que diz disso?
Colasanti:
Que pobreza! Acho pobre como definição. Primeiro,
a dissimulação não é uma invenção
das mulheres. É uma invenção dos seres humanos.
Os seres humanos frequentemente dizem uma coisa e pensam outra,
fingem ser o que não são, simulam suas intenções.
Basta você olhar o mercado que é hoje em dia
a mesma coisa que "Deus". O mercado é feito de
dissimulação o tempo inteiro, e se você olhar
o mercado, ele é predominantemente masculino. Então,
que conversa é essa? As mulheres têm várias
armas, entre as quais a dissimulação. Os homens têm
várias armas, entre as quais a dissimulação.
Você
escreveu que o amor é diferente para homens e mulheres. Quais
são as diferenças básicas que percebe?
Colasanti:
Sobretudo na época em que eu escrevi o livro ao qual você
está se referindo, um livro chamado E por falar em amor,
que deve ter mais de vinte anos. O que eu queria dizer é
que, de fato, era ensinado diferente para homens e mulheres. Para
mulheres era ensinado com fins matrimoniais, era ensinado que há
bons amores e maus amores, sendo que os bons amores duram para sempre,
no sentido de perenidade; os bons amores incluem fidelidade, sinceridade,
e os maus amores são aqueles que deixam o outro muito infeliz
sobretudo ela e de homens que não lhe dão
o devido valor, a devida atenção, que não são
fiéis, que a fazem sofrer.
Para
a mulher era ensinado: busque o amor, você nasceu para o amor,
o amor é que é o coroamento do seu "ser mulher"
no mundo. Para os homens era o seguinte: fuja do amor, meu filho,
porque se você cair no amor você está preso,
amarrado, fisgado, pescado, caçado, e casará! E é
no casamento que acaba o seu auge como homem, que aí você
vai trocar todas as mulheres do mundo por uma ou pelo menos
vai ter que fingir que está trocando. Para os homens o amor
era ensinado como uma fraqueza; para as mulheres era ensinado como
um fortalecimento. Para os homens vale a pluralidade, para as mulheres
não! A fidelidade é um dote para as mulheres; para
os homens, um equívoco é claro que todo
homem nasceu para o plural. Enfim, era ensinado de maneira diametralmente
oposta, para depois juntar e não dar certo, é claro.
É difícil dar certo assim.
E
hoje em dia?
Colasanti:
Acredito que hoje nós tenhamos variantes nesse quadro. As
moças já não acreditam em fidelidade para ambos,
e sobretudo não acreditam em diferenças para ambos.
Se há infidelidade para ele, para ela também. As estatísticas
dizem que o nível de infidelidade está praticamente
equiparado entre homens e mulheres os homens declaram mais
do que as mulheres, mas na prática estamos equiparados.
As
mulheres também não acreditam muito em amor pra sempre
gostariam, mas não acreditam muito. Algumas até
se assustam com essa idéia, acham que é apavorante
casar com um e ficar com esse um para sempre e não ter outro.
Outro dia, uma jovem me dizia uma jovem de trinta anos, não
era nenhuma menina me dizia que a idéia era apavorante.
O que muito me surpreendeu, pois ela é bem casada.
Nós
tivemos aí uma mudança grande. Uma mudança
até mesmo pelo seguinte: porque antes, as mulheres faziam
tudo para manter o casamento. Tinha uma seção na [revista]
Cláudia que era: Como salvei meu casamento
parecia coisa de Corpo de Bombeiros. (risos) Hoje em dia, o que
acontece é o contrário. As separações
e os divórcios são permanentemente pedidas por mulheres.
A tendência dos homens é ficar no casamento, mesmo
quando ele não está muito bom. A tendência das
mulheres, se o casamento não está bom, é separar.
No
mercado editorial existem dezenas de revistas de conselhos para
as adolescentes, mas não há nenhuma para o público
masculino da mesma faixa etária. Para você, por que
isso acontece?
Colasanti:
É a evolução de uma tendência já
antiga na imprensa. As revistas femininas sempre lidaram com comportamento,
e ao lidar com isso elas estão, não digo dando conselhos,
mas mostrando e analisando uma maneira de ver e tentando ver isso
de vários ângulos sociológicos, sem fazer teorias
acadêmicas.
As
revistas masculinas sempre foram revistas eróticas, para
estímulo erótico, companheiras de masturbação,
pouca análise de comportamento masculino. Algumas, quando
eram sofisticadas, como foi a Squire, por exemplo, durante
muito anos, é porque tinham artigos de análises
mas não comportamentais, mas de política, literatura,
economia. De alguma maneira, a sociedade considerava que os homens
não precisavam de conselho. Porque os homens são
fortes, os homens são todos acertados, tudo homem é
um acerto só! Porque se ele é o rei da criação,
só pode estar acertado. Agora, as mulheres, como eram
vistas como inferiores, quem sabe a gente dá a mão
para sair do buraco? Quem sabe a gente aconselha e elas melhoram
de vida? Então sempre houve uma tendência maior,
na imprensa feminina, deste diálogo. E também, porque
as mulheres são mais abertas a conversas sobre sentimentos.
Hoje, a gente sabe que isso é cerebral; mas não se
sabia antigamente. Tocava-se de ouvido. Hoje a gente sabe que isso
acontece porque o cérebro delas está preparado para
isso, organizado para isso. E o cérebro dos homens não
está organizado para conversas sobre o abstrato. O homem
conversa sobre o concreto.
Então
o homem tem muita dificuldade nessa área, e a mulher não.
Ora, justamente porque ele tem dificuldade hoje sabemos
acho que seria muito proveitosa uma publicação, ou
uma linha de publicações que ajudassem os homens a
dialogar com o indialogável, com aquilo que são
seus sentimentos, seu comportamento, o seu "ser homem"
num mundo em que a questão de ser homem é posta em
questionamento, o modelo antigo prescreveu.
Os
homens não se protegeram da maneira mais correta. Quando
o feminismo aconteceu e evoluiu, os homens reforçaram as
defesas, as barreiras, o machismo. Fecharam as portas para a sua
passagem, em vez de se fortalecerem e procurarem uma nova adequação:
qual é o meu papel frente a esta mulher que é outra?
E não negar essa mulher, porque ela existe. Então,
quanto mais os homens tentarem organizar o seu novo modelo de masculinidade,
melhor para todos.
As
adolescentes costumam ser mais espertas e inteligentes que os rapazes
da mesma idade. Certa vez eu arrisquei uma hipótese de que
o fato delas, em geral, terem o hábito de registrar as experiências
em diário, seria um elemento importante para o auto-conhecimento.
O que acha disso?
Colasanti:
Não. Eu creio que isso se deve mais à evolução
hormonal. Uma menina, no Brasil, até de nove anos, já
está entrando em vida reprodutiva. Eu tenho muito respeito
pela natureza. Ela não ia botar a gente fazendo filho sem
poder tomar conta desses filhos, sem ter uma maturidade maior. É
claro que uma menina de nove anos não está pronta
para ser mãe. Porém, as meninas evoluem mais cedo,
estão prontas mais cedo. Não é nem questão
de mais ou menos inteligentes porque quando você disse
inteligente, você não quis dizer inteligente,
você quis dizer mais madura, mais viva, mais pronta, mais
atenta para a vida. Porque elas têm que estar prontas, pois
num piscar de olhos elas engravidam. Com 13, 14 anos elas engravidam.
Tanto que, antigamente, as meninas casavam nessa idade. Na história
do Brasil do século XIX, as meninas casavam com 14, 15, 16
anos. Mesmo as avós da minha geração casavam
muito cedo.
Parecido com hoje.
Colasanti:
Hoje elas não casam. Hoje elas transam. E não vão
ter que cuidar de uma casa, não vão ter filhos. Hoje,
pelo contrário, elas transam sem precisar de qualquer maturidade,
pois o ato sexual não requer mais nenhuma maturidade, nenhuma
escolha, não requer nenhuma reflexão. Acontece! E
não tem consequências. Antigamente, um casamento aos
16 anos, aos 15 anos, como elas casavam isso a geração
de Fernando Sabino, as meninas casavam com essa idade requeria-se
uma reflexão, era uma responsabilidade muito grande, elas
tinham filho logo, tinham casa pra cuidar, marido e o marido,
em geral, era mais velho. Então era uma responsabilidade
muito grande. Elas tinham que estar prontas nessa idade.
Qual
é o papel do movimento feminista hoje?
Colasanti:
Primeiro a gente tem que dizer em que países. Se é
no Brasil, a expressão "movimento feminista" prescreveu,
não se usa mais. Agora usam-se as expressões "estudos
de gênero", "questões de gênero",
e isso é muito sintomático. Porque, quando se dizia
movimento feminista, tratava-se de um movimento que lutava pelos
direitos das mulheres, defendia os direitos das mulheres. Era um
movimento de mulheres para mulheres. Quando se passa a falar em
questões de gênero, já deslizamos para um outro
universo semântico, e não à toa. Ou seja, estamos
dizendo que vamos nos ocupar de questões de homens e de mulheres,
questões de cidadania ligadas ao feminino e ao masculino.
Com essa abertura, proposta, aceita e estabelecida sobretudo no
encontro de Beijing (China), o que aconteceu foi que as questões
do feminino que estavam em aberto, que não estavam resolvidas
num país onde a miséria é um problema de primeiríssima
linha, e onde, portanto, as mulheres estão num estado terrível
porque sempre que há pobres, os mais pobres são
as mulheres, os mais sacrificados são as mulheres
num país nessa situação, o enfraquecimento
daquilo que era trabalho em cima do feminino, cravado no feminino,
insistindo no feminino, foi muito ruim. Os movimentos praticamente
se desfizeram, as militantes montaram as suas ongs, nós temos
as coisas governamentais, os centros de estudo, mas os grupos militantes
que existiam, já não há mais, ou os que há
são muito raros. Não há uma visibilidade, um
avanço desse trabalho.
Essa
discussão de gêneros será capaz de unir homens
e mulheres em um objetivo comum?
Colasanti:
A esperança era essa. E o intuito era justo para os países
do primeiro mundo que já tinham alcançado grande parte
do que queriam embora os EUA, até hoje, não
tenham licença maternidade, por exemplo o que acho
gravíssimo. Nos EUA não tem creche! É um primeiro
mundo para eles, para elas, não sei. Mas enfim, uma coisa
que foi pensada para o primeiro mundo, foi vendida e comprada por
países pobres que tinham outras necessidades. Acho ótimo
que falemos de gênero, que tentemos fundir essas questões.
Mas tem alguém aí falando, por exemplo, em planejamento
familiar? Em saúde da mulher, mortalidade materna? Lula foi
lá no Nordeste, eram todas casas de mulheres sem maridos,
com cinco, seis, sete, oito filhos. Quem fala em planejamento familiar?,
em ajudar as mulheres a não fazerem oito filhos quando elas
não têm o que lhes dar de comer? Ou então creches
para colocar essas crianças? São essas as questões.
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