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Matéria publicada no Revelação (jornal-laboratório do curso de Comunicação Social da Universidade de Uberaba) n. 216, em 13 de agosto de 2002

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andre.azevedo@uniube.br


Dona Maria Aparecida é uma figura querida na feira

Dona Maria Aparecida é uma figura muito querida e popular na feira. "Vira as costas para ela pra você ver. Ela bate na bunda de tudo quanto é homem", afirma a feirante Nilva Borges. Dona Maria vai pela feira segurando uma notinha de um real e compra uma alface, depois sai pedindo coisas para as pessoas e então troca por qualquer coisa na outra banca. "Todos têm um carinho especial por ela. Ela é muito alegrinha. Minha filha adora ela", diz Nilva.

No domingo posterior (dia 11), lá estava dona Maria Aparecida, segurando seu carrinho de compras, contando alguma coisa para Maria Angélica, outra feirante. "Ela dizia que uma mulher tiha dado uma boneca pra ela, e ela gosta de brincar", disse, mais tarde. A feirante confirma que todo domingo dona Maria aparece na feira. "Ela conversa e brinca com todo mundo. Às vezes nem pede, as pessoas já dão as coisas", diz.

OVOS COM DUAS GEMAS - 30 POR 3,80. Os cachorros não estão nem aí para os frangos da máquina assadeira – televisão de cachorro – da M & M Queijos, frangos e frios. Preferem vagabundear na feira. Um senhor enche uma garrafa plástica com garapa.

Bucha, cadeira de plástico, espada colorida, tampa de panela – conserta-se panelas na hora – vaso de flor, saco de humus, toalha do Pica-pau. Um senhor de cadeira de rodas informa as horas para sua companheira, também de cadeira de rodas: 10h19. Um garoto de uns sete anos mexe na cadeira e fica perguntando coisas. Peixe, cenoura, abacaxi, mandioca, sangue e gordura de uma linguiça fincada no gancho escorrem na bacia de plástico sobre a prateleira. Um cachorro, olhando, nem pisca. "MIXIRICA, 0,49 Kg", pimenta colorida na garrafa, jiló, sorvete colorido.


Jefferson Moura da Silva, 15, comprou um pato por R$10,00. "Meu padrasto que vai matar. Hoje mesmo a gente come ele no almoço"

Mais tarde, no bar do Renato, João de Assis, 42, morador do bairro que, além de ser dono de uma marcenaria, ainda cria umas galinhas caipiras, explica por que não se deve deixar chocar os ovos de duas gemas. "Ovo de duas gemas dá galinha aleijada. Nascem de quatro patas, de duas cabeças, quatro asas. Antigamente isso usava muito em circo, exibiam as coitadinhas. Hoje é proibido, não pode deixar chocar. É uma judiação", diz.

Algumas pessoas lembraram que antigamente a Abadia tinha o apelido de Coréia. "É porque aqui matavam um por dia", diz um morador do bairro que preferiu não ser identificado. "O pessoal do centro não vinha aqui de jeito nenhum. E era mesmo uma bagunça, tinha ronda da polícia o tempo todo. Mas não tem isso mais não, hoje é gostoso demais. Hoje, todo mundo quer vir morar na Abadia", entusiasma-se.

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