
Emprego no Café garantiu
uns euros a mais para pagar as dívidas do cartão
e garantir a viagem |
Dias
melhores
As coisas começaram a melhorar
quando conseguiu um emprego: foi trabalhar de caixa num Café.
"Tive sorte. O cara gostou muito de mim. Quando fui fazer entrevista,
ele disse que fui o primeiro empregado a ir de cara
pro caixa normalmente as pessoas vão pra cozinha.
Acredito que ter mostrado meu diploma de curso superior deve ter
ajudado", observa. O serviço rendia 6,30 euros por hora.
Esse serviço permitiu também que ele economizasse
mais, pois gastava menos com comida. "No Café, do dono
irlandês, eu tomava o lanche de graça", explica.
Fabiano teve que sair da casa na nigeriana
gente boa porque era um lugar afastado do centro, onde se
localizava o Café. Além disso, a hosfamily esperava
outros estudantes ligados à agência de intercâmbio
o quarto tinha que ser desocupado. "Fiquei duas semanas
em um albergue, com 16 pessoas no quarto. Depois fiz contato com
o pessoal da escola e descobri três estudantes estrangeiros
um outro brasileiro, um espanhol e um chileno que
também queriam ficar, mas também precisavam sair das
casas de família por causa do contrato". Juntos, encontraram
um apartamento mobiliado e bem localizado. "Pagamos dois meses
adiantado. 3 mil euros. Como eu não tinha grana, a galera
ainda me emprestou. Eu pagava para eles de acordo com o que recebia
do salário da semana. Tive muita sorte, era uma turma muito
legal", conta.
Com a grana do salário, decidiu
voltar para o curso de inglês à tarde, depois do expediente.
O serviço ia das 7h30 às 15h30. Às 16h já
estava na escola. A aula terminava às 19h. Mas ele preferiu
abandoná-la novamente, um tempo depois, porque arrumou um
segundo emprego, à noite. "Deixei a escola, por uns
tempos, porque ainda estava devendo algumas coisas: cartão
estourado, limites do banco, grana emprestada dos amigos. Então
aceitei a proposta de outro emprego, numa lanchonete, fazendo sanduíche.
Ralei pra caramba". Apesar da "ralação",
Fabiano guarda bons momentos da correria na cozinha. "Eu acho
que gostava mais de trabalhar na lanchonete do que de caixa, porque
lá a gente fazia muita brincadeira, era muito divertido.
No caixa era mais sério, tinha mais responsabilidade. Na
lanchonete era pauleira, mas era mais descontraído",
conta.
Mas o serviço na lanchonete durou
apenas algumas semanas. "Tive de escolher que emprego eu ia
ficar. A lanchonete era legal, mas era longe do centro, eu tinha
que pegar ônibus, saía tarde da noite. Eu perdia muito
horário. Às vezes terminava 1h da madrugada, 1h30.
Tinha uma Van que levava as pessoas em casa, e como eu morava no
centro, eu era o último a ser levado. Às vezes chegava
2h ou 3h da manhã. Acabei optando pelo Café, porque
ficava no centro, mais prático, e era durante o dia".
Então voltou para a escola de inglês, e passou a frequentar
uma biblioteca pública de Dublin. "É muito boa,
é uma biblioteca própria para estrangeiros. Lá
eu fazia um curso do tipo aprenda sozinho."
Nessa época, ele gastava uns 500 euros por mês. Ao
voltar para a escola, garantiu o visto de estudante.

Fabiano
da Mota posa ao lado da estátua do poeta e romancista
irlandês James Joyce, autor de "Ulisses"
obra que exerceu influência revolucionária sobre
a literatura moderna de ficção. Joyce foi o criador
de uma nova estrutura narrativa, chamada de "fluxo contínuo
de consciência" |
Cidade legal
"A cidade é tranquila.
É um país pequeno, 5 milhões de habitantes.
Não tive nenhum problema com polícia nem nada. Muitas
pessoas confundem por causa da Irlanda do Norte com o IRA
e aquelas coisas que se vê na TV que é comandada
pelo Reino Unido. A República da Irlanda, ou Irlanda do Sul,
é um país independente. Só vi um caso de violência
que apareceu nos jornais. Lá é um país pequeno,
rico, sem dívida externa, analfabetismo zero é
o segundo maior exportador de softwares do mundo", explica.

Castelos
medievais deslumbram turistas que visitam a Irlanda
|
Evidentemente, nas folgas entre um
cálculo de troco no Café e um X-Egg na Lanchonete,
passeou pelas cidades da Irlanda. "Lá tem muitos castelos,
muito verde. Conheci castelos cons-truídos em 1181. Tem um
lugar lá, acho que foi o mais bonito que já vi na
vida. São rochas gigantescas, a água do mar batendo
"
relembra.
Fabiano aprendeu que, até meados
do século passado, a Irlanda era um país muito pobre.
"Teve uma crise de fome braba por lá. A batata foi o
que os salvou, porque era barata de ser cultivada. A batata é
até um símbolo para eles. Os irlandeses migravam para
os EUA e Inglaterra. Agora a situação inverteu. As
pessoas é que estão migrando pra lá. Há
uma discussão séria entre políticos que querem
barrar entrada de estrangeiros por lá. Eles alegam que estão
superlotando o país", explica.
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