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Matéria publicada no Revelação (jornal-laboratório do curso de Comunicação Social da Universidade de Uberaba) n. 217, em 20 de agosto de 2002

andre.azevedo@uniube.br


Emprego no Café garantiu uns euros a mais para pagar as dívidas do cartão e garantir a viagem

Dias melhores

As coisas começaram a melhorar quando conseguiu um emprego: foi trabalhar de caixa num Café. "Tive sorte. O cara gostou muito de mim. Quando fui fazer entrevista, ele disse que fui o primeiro empregado a ir ‘de cara’ pro caixa — normalmente as pessoas vão pra cozinha. Acredito que ter mostrado meu diploma de curso superior deve ter ajudado", observa. O serviço rendia 6,30 euros por hora. Esse serviço permitiu também que ele economizasse mais, pois gastava menos com comida. "No Café, do dono irlandês, eu tomava o lanche de graça", explica.

Fabiano teve que sair da casa na nigeriana gente boa porque era um lugar afastado do centro, onde se localizava o Café. Além disso, a hosfamily esperava outros estudantes ligados à agência de intercâmbio — o quarto tinha que ser desocupado. "Fiquei duas semanas em um albergue, com 16 pessoas no quarto. Depois fiz contato com o pessoal da escola e descobri três estudantes estrangeiros — um outro brasileiro, um espanhol e um chileno — que também queriam ficar, mas também precisavam sair das casas de família por causa do contrato". Juntos, encontraram um apartamento mobiliado e bem localizado. "Pagamos dois meses adiantado. 3 mil euros. Como eu não tinha grana, a galera ainda me emprestou. Eu pagava para eles de acordo com o que recebia do salário da semana. Tive muita sorte, era uma turma muito legal", conta.

Com a grana do salário, decidiu voltar para o curso de inglês à tarde, depois do expediente. O serviço ia das 7h30 às 15h30. Às 16h já estava na escola. A aula terminava às 19h. Mas ele preferiu abandoná-la novamente, um tempo depois, porque arrumou um segundo emprego, à noite. "Deixei a escola, por uns tempos, porque ainda estava devendo algumas coisas: cartão estourado, limites do banco, grana emprestada dos amigos. Então aceitei a proposta de outro emprego, numa lanchonete, fazendo sanduíche. Ralei pra caramba". Apesar da "ralação", Fabiano guarda bons momentos da correria na cozinha. "Eu acho que gostava mais de trabalhar na lanchonete do que de caixa, porque lá a gente fazia muita brincadeira, era muito divertido. No caixa era mais sério, tinha mais responsabilidade. Na lanchonete era pauleira, mas era mais descontraído", conta.

Mas o serviço na lanchonete durou apenas algumas semanas. "Tive de escolher que emprego eu ia ficar. A lanchonete era legal, mas era longe do centro, eu tinha que pegar ônibus, saía tarde da noite. Eu perdia muito horário. Às vezes terminava 1h da madrugada, 1h30. Tinha uma Van que levava as pessoas em casa, e como eu morava no centro, eu era o último a ser levado. Às vezes chegava 2h ou 3h da manhã. Acabei optando pelo Café, porque ficava no centro, mais prático, e era durante o dia". Então voltou para a escola de inglês, e passou a frequentar uma biblioteca pública de Dublin. "É muito boa, é uma biblioteca própria para estrangeiros. Lá eu fazia um curso do tipo aprenda sozinho." Nessa época, ele gastava uns 500 euros por mês. Ao voltar para a escola, garantiu o visto de estudante.


Fabiano da Mota posa ao lado da estátua do poeta e romancista irlandês James Joyce, autor de "Ulisses" — obra que exerceu influência revolucionária sobre a literatura moderna de ficção. Joyce foi o criador de uma nova estrutura narrativa, chamada de "fluxo contínuo de consciência"

Cidade legal

"A cidade é tranquila. É um país pequeno, 5 milhões de habitantes. Não tive nenhum problema com polícia nem nada. Muitas pessoas confundem por causa da Irlanda do Norte — com o IRA e aquelas coisas que se vê na TV — que é comandada pelo Reino Unido. A República da Irlanda, ou Irlanda do Sul, é um país independente. Só vi um caso de violência que apareceu nos jornais. Lá é um país pequeno, rico, sem dívida externa, analfabetismo zero — é o segundo maior exportador de softwares do mundo", explica.


Castelos medievais deslumbram turistas que visitam a Irlanda

Evidentemente, nas folgas entre um cálculo de troco no Café e um X-Egg na Lanchonete, passeou pelas cidades da Irlanda. "Lá tem muitos castelos, muito verde. Conheci castelos cons-truídos em 1181. Tem um lugar lá, acho que foi o mais bonito que já vi na vida. São rochas gigantescas, a água do mar batendo…" relembra.

Fabiano aprendeu que, até meados do século passado, a Irlanda era um país muito pobre. "Teve uma crise de fome braba por lá. A batata foi o que os salvou, porque era barata de ser cultivada. A batata é até um símbolo para eles. Os irlandeses migravam para os EUA e Inglaterra. Agora a situação inverteu. As pessoas é que estão migrando pra lá. Há uma discussão séria entre políticos que querem barrar entrada de estrangeiros por lá. Eles alegam que estão superlotando o país", explica.

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