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Presidente de federação
de bairros relata as dificuldades das populações pobres
no relacionamento com a imprensa
Tânia Palma,
presidente da Federação das Associações
de Bairro de Salvador, concedeu esta entrevista no Centro de Convenções
da Bahia, depois de participar do painel Violência: do real
às imagens, que aconteceu na manhã de 3 de setembro,
no 25º Congresso Brasileiro de Ciências da Comunicação
da Intercom.
Pergunta: Qual
é a grande decepção que moradores de bairros
pobres têm com a imprensa?
Tânia Palma:
Nessa perspectiva do trabalho na Intercom, que é a questão
da violência, é a inexistência do direito de
você responder a uma matéria que foi colocada sobre
algum bairro de Salvador, envolvendo uma vítima de violência.
A gente não consegue falar com os editores, o direito de
resposta, na maioria das vezes, não entra nas pautas. A gente
não consegue colocar a nossa opinião sobre o fato
acontecido.
Pra nós, isso
é muito grave. Porque na medida em que um jornal de grande
circulação comete uma injustiça, e você
não consegue ter direito de resposta, aquele fato, na vida
daquela pessoa, acaba carregando problemas para o resto da vida.
Pergunta: Vocês
não conseguem contar as suas versões em grandes jornais,
é isso?
Tânia:
É. E isso é terrível, a gente não
consegue estabelecer contato inclusive com sindicatos de
jornalista, com o pessoal da associação de imprensa.
Nós precisamos que a população tenha também
voz sobre determinadas matérias que são colocadas,
não só com relação à violência,
mas com relação à invasão de terra,
à derrubada de casas, e outras.
Pergunta: Jornais
só procuram bairros pobres quanto acontece crime?
Tânia:
É o que temos visto. Quando a gente programa eventos nas
comunidades, nos bairros, a gente chama a mídia e não
dão nenhuma importância. Quer dizer, o fato de você
produzir coisas diferentes, em lugares onde a mídia não
está com os olhos voltados, deixa muito claro o recorte de
classe social. Quando é um bairro periférico, o que
acontece lá de bom, que envolve a comunidade, que busca articulação
e mobilização da comunidade, isso não vende
para o jornal. Então é esse contato que a gente não
consegue manter com a imprensa.
Pergunta: Qual a
sua sugestão para um melhor desempenho jornalístico,
neste caso?
Tânia:
Jornais poderiam publicar matérias sobre o que os bairros
populares produzem, o que eles têm de cultura, o que têm
de atividades de renda, de mobilização social, para
que isso também possa ser colocado para as pessoas. Pelo
fato de ocorrerem crimes envolvendo vítimas, não quer
dizer que ali também não se produzam outras coisas.
Ali tem trabalhadores, estudantes, operários; é também
um bairro que está preocupado com a questão da política
em geral.
Pergunta: Os jornais
têm refletido as preferências políticas de moradores
de bairros pobres?
Tânia:
Nunca somos ouvidos! Inclusive, eu falava com uma jornalista, que
a gente precisava dar a nossa opinião sobre o que é
que a gente acha dos candidatos. Não precisa sair só
pelas universidades entrevistando os alunos, ou nos shopping
centers, onde a população pobre não anda.
Precisa ir nos bairros, ver se as pessoas estão preocupadas
com a questão da política, da ALCA, o que elas entendem
por isso. Isso é jornalismo para a população.
Pergunta: Por que
jornalistas nem sempre conseguem traduzir a voz do morador de periferia?
Tânia:
Parece que há um grande problema nessa coisa da construção
do texto. Às vezes o jornalista faz uma leitura dele,
pessoal, sobre aquele fato, e acaba colocando a impressão
que ele tem sobre aquilo, e não, na verdade, o que
a gente falou. Então eu tenho muita preocupação
com essa coisa da entrevista. Se ele está compreendendo bem.
Você está entendendo bem? Como é que é?
O que entendeu que a gente quer dizer? O que a gente está
querendo traduzir com isso? O que a gente quer chamar a atenção?
Isso é no sentido
dele não fazer uma coisa contrária. E, nesse caso
da violência, uma coisa que a gente precisa chamar a atenção
é de que, às vezes, até colocam a gente em
posição ruim no bairro.
Pergunta: Como assim?
Tânia:
Por exemplo, colocam que você sabe quem é o culpado,
dão a entender que você conhece quem foi que matou.
Aí, neste caso, publicam seu nome, seu endereço, onde
você mora. Querem que você fale sobre onde achar no
bairro o lugar mais violento. Quer dizer, te colocam a todo momento
numa situação muito vulnerável. E não
conseguem estabelecer uma outra leitura do ocorrido, nem de como
é que a gente está enfrentado e tratando daquele problema.
(A.A.)
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