# Informações gerais


Matéria publicada no Revelação (jornal-laboratório do curso de Comunicação Social da Universidade de Uberaba) n. 220, em 17 de setembro de 2002

Publicado no Observatório da Imprensa, edição n. 190, em 18 de setembro de 2002

andre.azevedo@uniube.br


Presidente de federação de bairros relata as dificuldades das populações pobres no relacionamento com a imprensa

Tânia Palma, presidente da Federação das Associações de Bairro de Salvador, concedeu esta entrevista no Centro de Convenções da Bahia, depois de participar do painel Violência: do real às imagens, que aconteceu na manhã de 3 de setembro, no 25º Congresso Brasileiro de Ciências da Comunicação da Intercom.

Pergunta: Qual é a grande decepção que moradores de bairros pobres têm com a imprensa?

Tânia Palma: Nessa perspectiva do trabalho na Intercom, que é a questão da violência, é a inexistência do direito de você responder a uma matéria que foi colocada sobre algum bairro de Salvador, envolvendo uma vítima de violência. A gente não consegue falar com os editores, o direito de resposta, na maioria das vezes, não entra nas pautas. A gente não consegue colocar a nossa opinião sobre o fato acontecido.

Pra nós, isso é muito grave. Porque na medida em que um jornal de grande circulação comete uma injustiça, e você não consegue ter direito de resposta, aquele fato, na vida daquela pessoa, acaba carregando problemas para o resto da vida.

Pergunta: Vocês não conseguem contar as suas versões em grandes jornais, é isso?

Tânia: É. E isso é terrível, a gente não consegue estabelecer contato — inclusive com sindicatos de jornalista, com o pessoal da associação de imprensa. Nós precisamos que a população tenha também voz sobre determinadas matérias que são colocadas, não só com relação à violência, mas com relação à invasão de terra, à derrubada de casas, e outras.

Pergunta: Jornais só procuram bairros pobres quanto acontece crime?

Tânia: É o que temos visto. Quando a gente programa eventos nas comunidades, nos bairros, a gente chama a mídia e não dão nenhuma importância. Quer dizer, o fato de você produzir coisas diferentes, em lugares onde a mídia não está com os olhos voltados, deixa muito claro o recorte de classe social. Quando é um bairro periférico, o que acontece lá de bom, que envolve a comunidade, que busca articulação e mobilização da comunidade, isso não vende para o jornal. Então é esse contato que a gente não consegue manter com a imprensa.

Pergunta: Qual a sua sugestão para um melhor desempenho jornalístico, neste caso?

Tânia: Jornais poderiam publicar matérias sobre o que os bairros populares produzem, o que eles têm de cultura, o que têm de atividades de renda, de mobilização social, para que isso também possa ser colocado para as pessoas. Pelo fato de ocorrerem crimes envolvendo vítimas, não quer dizer que ali também não se produzam outras coisas. Ali tem trabalhadores, estudantes, operários; é também um bairro que está preocupado com a questão da política em geral.

Pergunta: Os jornais têm refletido as preferências políticas de moradores de bairros pobres?

Tânia: Nunca somos ouvidos! Inclusive, eu falava com uma jornalista, que a gente precisava dar a nossa opinião sobre o que é que a gente acha dos candidatos. Não precisa sair só pelas universidades entrevistando os alunos, ou nos shopping centers, onde a população pobre não anda. Precisa ir nos bairros, ver se as pessoas estão preocupadas com a questão da política, da ALCA, o que elas entendem por isso. Isso é jornalismo para a população.

Pergunta: Por que jornalistas nem sempre conseguem traduzir a voz do morador de periferia?

Tânia: Parece que há um grande problema nessa coisa da construção do texto. Às vezes o jornalista faz uma leitura dele, pessoal, sobre aquele fato, e acaba colocando a impressão que ele tem sobre aquilo, e não, na verdade, o que a gente falou. Então eu tenho muita preocupação com essa coisa da entrevista. Se ele está compreendendo bem. Você está entendendo bem? Como é que é? O que entendeu que a gente quer dizer? O que a gente está querendo traduzir com isso? O que a gente quer chamar a atenção?

Isso é no sentido dele não fazer uma coisa contrária. E, nesse caso da violência, uma coisa que a gente precisa chamar a atenção é de que, às vezes, até colocam a gente em posição ruim no bairro.

Pergunta: Como assim?

Tânia: Por exemplo, colocam que você sabe quem é o culpado, dão a entender que você conhece quem foi que matou. Aí, neste caso, publicam seu nome, seu endereço, onde você mora. Querem que você fale sobre onde achar no bairro o lugar mais violento. Quer dizer, te colocam a todo momento numa situação muito vulnerável. E não conseguem estabelecer uma outra leitura do ocorrido, nem de como é que a gente está enfrentado e tratando daquele problema. (A.A.)

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