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Matéria publicada no Revelação (jornal-laboratório do curso de Comunicação Social da Universidade de Uberaba) n. 222, em 1 de outubro de 2002

andre.azevedo@uniube.br


Jornalista e escritor conversa sobre literatura, Internet, 1968, e fala de seu par de meias "espetaculares"

fotos: André Azevedo

Autor de 1968: o ano que não terminou, esteve na cidade para conversar com leitores
André Azevedo da Fonseca

O jornalista e escritor Zuenir Ventura esteve no auditório da Faculdade de Medicina do Triângulo Mineiro, na noite de 26 de setembro, para participar do projeto Tim-Estado de Minas: Grandes Escritores, uma parceria com os programas Pró-ler e ArtEducação.

Ventura trabalhou como repórter, redator e editor em vários órgãos da imprensa brasileira. Ganhou o prêmio Esso de Reportagem e o Prêmio Wladimir Herzog de Jornalismo em 1989. É autor de 1968: o ano que não terminou; Cidade partida; Mal secreto (sobre a inveja, o primeiro volume da coleção Plenos Pecados); e Crônicas de um fim de século. Atualmente é colunista semanal do jornal O Globo, da revista Época e do site www.nomimino.com.br.

Nas últimas semanas, o jornalista tornou-se célebre por causa de suas meias tidas como "espetaculares". Em uma crônica publicada no jornal O Estado de S. Paulo, o escritor Luís Fernando Veríssimo, comentando o debate que o jornalista mediou entre candidatos a presidência da república, escreveu que uma "rápida pesquisa da platéia no fim das entrevistas teria dado um resultado: as meias do Zuenir Ventura para presidente!"

A entrevista a seguir foi concedida na manhã de 26 de setembro, no saguão do Hotel Manhattan, na presença de Olga Frange, coordenadora do ArtEducação em Uberaba, e Juliana Magnino, assessora de imprensa.

Por que é importante discutir as meias de Zuenir Ventura?

Zuenir Ventura: (risos) É, eu descobri que fiquei famoso agora pelas meias. Isso foi uma brincadeira do Veríssimo. Eu estava mediando uma mesa dos candidatos — era com o José Serra — e a mesa propriamente dita era aberta, embaixo. Eu não estava nem com aquelas meias, porque eu gosto muito de meias, sou pavão ao contrário, a única coisa bonita que eu tenho são os pés. Mas eu já devia desconfiar, porque estavam sentados, na primeira fila, o Veríssimo e o Chico Caruso. Quando juntam dois humoristas, evidentemente vem sacanagem. Uns dias depois, eu abro o jornal (risos) e vejo aquela crônica. Aí eu não tive mais sossego! Eu chego e as pessoas puxam minha calça para olhar a meia. (risos) Eu, que queria ser famoso pelas coisas que eu escrevo, vou ficar famoso pelas meias que eu uso. Espetaculares, como diria o Veríssimo.

Já ouvi críticas que acusam cronistas de usar espaço precioso de jornal para escrever futilidades — como a vista para o mar do apartamento — no lugar de apresentar temas importantes. O que acha disso?

Zuenir: Não concordo, porque há outras pessoas que criticam justamente quando a gente só escreve sobre assuntos pesados, quando só fala de tragédia. E isso serve para a imprensa em geral. Perguntam: por que vocês só vêem esse lado da vida, só vêem as coisas ruins? A imprensa já tem um pouco daquele princípio de que notícia boa é notícia ruim. A crítica mais geral, hoje, é de que os jornais só falam de coisa ruim. É como se a gente realmente tivesse um olhar meio patológico, de escolher só as coisas desagradáveis. Então é o contrário, temos que equilibrar um pouco.

É possível ser otimista no jornalismo?

Zuenir: O meu olhar, a minha maneira de ver é otimista. Eu sou uma pessoa otimista. Eu curto um dia de sol, eu curto o Rio de Janeiro pelas suas belezas, eu sofro com aquela violência. Eu, se pudesse, só escreveria crônica sobre a praia e sobre o mar (risos), sobre as mulheres do Rio de Janeiro, sobre aquilo que o Rio tem — e é realmente fascinante — que é esse hedonismo, essa energia vital que tem a cidade, que tem aquele povo, sobretudo a população mais carente, mais desprotegida. Se pudesse, eu só olharia esse lado da vida.

Qual a importância da crônica de costumes no jornalismo?

Zuenir: De certa maneira, foi o Brasil que descobriu esse tipo de crônica. Isso começa já no fim do século XIX com o Machado, mas a principal caracterização vem nos anos 40, que é aquela geração maravilhosa, do Rubem Braga, Fernando Sabino, Otto Lara Rezende, Paulo Mendes Campos. Algumas das melhores crônicas do Rubem Braga são sobre a falta de assunto, sobre a amendoeira, ou sobre o homem que vem nadando, e ele acompanha, e não acontece nada! Esses cronistas nos ensinaram a olhar aquelas aparentes insignificâncias da vida — e que na verdade são muito significativas. Ao contrário daquela crítica, esse olhar para as miudezas do cotidiano, para aquelas coisas que aparentemente não têm importância, é realmente muito importante. A vida é feita disso. E, talvez, esse é o grande charme da crônica.

Manchetes do tipo "mercado assusta-se com nervosismo do dólar", como se o mercado fosse um animal apavorado, parecem abusivamente metafóricas. O jornalismo ainda dá conta da realidade?

Zuenir: Eu acho que não. Sobretudo o que entendemos hoje por realidade. A realidade pós-moderna, não só no Brasil mas no mundo, é muito vertiginosa. Tudo é efêmero, veloz, passageiro, fugaz. A sensação que dá é a de que vivemos em uma sociedade onde o mundo é todo descartável, dura o tempo de uma notícia, dura alguns segundos na televisão, um dia no jornal. Essa é a sensação que a gente tem. E a gente realmente não dá conta. Eu acho até que toda a apreensão — seja jornalística, seja literária — acaba sendo mais recriação do que a transcrição da realidade. A gente está sempre em déficit com a realidade. A reali-dade — ainda bem! — é muito mais rica, muito mais complexa, do que a nossa capacidade de apreendê-la. Cada vez menos estamos dando conta dessa realidade tão complexa, que é essa chamada pós-moderna.

O caso da Agência Estado, que noticiou a visita de um candidato presidencial à cidade de Palmas que não havia acontecido, é um acidente isolado ou um sintoma dessa sociedade veloz? [Nota: A visita constava da agenda do candidato mas foi cancelada à última hora. A repórter havia redigido um texto preliminar e enviado as informações. Por um erro técnico, o texto acabou publicado]

Zuenir: Acho que é um acidente. Mas nós, jornalistas, precisamos prestar muita atenção nisso. Por exemplo, eu já fui morto pela Internet! A Internet já me matou. Um site de notícias — aliás, do Estadão — botou no ar que eu tinha morrido. Isso foi uma coisa que, num primeiro momento, foi muito engraçada. Mas, enfim, obituários já estavam sendo feitos, colegas meus — até hoje têm uma raiva danada de mim por isso (risos) — estavam tomando sua cerveja no bar e foram chamados para fazer o meu perfil, já que eu havia morrido. Tudo isso foi até muito engraçado; mas, durante pelo menos duas horas, meu filho ficou com essa notícia. Eu não conseguia desmentir e ele ficou achando que eu tinha morrido. Eu tenho parentes em outros lugares, e isso foi para o rádio. Imagina se a minha irmã tivesse ouvido isso?

Enfim, isso foi uma lição para todos nós. O que produziu isso? A correria! Aquela ânsia de um furar o outro. Como esse site tinha sido furado uns dias antes por um outro site — o da Folha — então realmente o repórter se precipitou. E isso ainda foi acontecer comigo, que sou uma figurinha de fácil apuração no Rio de Janeiro, sou conhecido no Rio. Pela notícia, o acidente de carro tinha acontecido ao meio dia e eu tinha morrido às seis da tarde. Imagina, todo o Rio de Janeiro teria sabido, por causa da minha família, meus amigos. Eu trabalho em uma revista, em um jornal, meu filho trabalhava no Jornal do Brasil. Era uma coisa fácil de apurar. Se isso acontece com uma pessoa de fácil apuração, imagina com um cidadão menos exposto. Eu chamei muita atenção para isso na época. Foi uma lição. Adianta achar que o furo é um valor absoluto e supremo do jornalismo? Não é! O melhor furo é a qualidade.

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