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Jornalista
e escritor conversa sobre literatura, Internet, 1968, e fala de
seu par de meias "espetaculares"
fotos:
André Azevedo

Autor
de 1968: o ano que não terminou, esteve na cidade para
conversar com leitores |
André Azevedo
da Fonseca
O
jornalista e escritor Zuenir Ventura esteve no auditório
da Faculdade de Medicina do Triângulo Mineiro, na noite de
26 de setembro, para participar do projeto Tim-Estado de Minas:
Grandes Escritores, uma parceria com os programas Pró-ler
e ArtEducação.
Ventura
trabalhou como repórter, redator e editor em vários
órgãos da imprensa brasileira. Ganhou o prêmio
Esso de Reportagem e o Prêmio Wladimir Herzog de Jornalismo
em 1989. É autor de 1968: o ano que não terminou;
Cidade partida; Mal secreto (sobre a inveja,
o primeiro volume da coleção Plenos Pecados);
e Crônicas de um fim de século. Atualmente é
colunista semanal do jornal O Globo, da revista Época
e do site www.nomimino.com.br.
Nas
últimas semanas, o jornalista tornou-se célebre por
causa de suas meias tidas como "espetaculares".
Em uma crônica publicada no jornal O Estado de S. Paulo,
o escritor Luís Fernando Veríssimo, comentando o debate
que o jornalista mediou entre candidatos a presidência da
república, escreveu que uma "rápida pesquisa
da platéia no fim das entrevistas teria dado um resultado:
as meias do Zuenir Ventura para presidente!"
A entrevista a seguir foi concedida na manhã de 26 de
setembro, no saguão do Hotel Manhattan, na presença
de Olga Frange, coordenadora do ArtEducação em Uberaba,
e Juliana Magnino, assessora de imprensa.
Por
que é importante discutir as meias de Zuenir Ventura?
Zuenir
Ventura:
(risos) É, eu descobri que fiquei famoso agora pelas meias.
Isso foi uma brincadeira do Veríssimo. Eu estava mediando
uma mesa dos candidatos era com o José Serra
e a mesa propriamente dita era aberta, embaixo. Eu não
estava nem com aquelas meias, porque eu gosto muito de meias,
sou pavão ao contrário, a única coisa bonita
que eu tenho são os pés. Mas eu já devia desconfiar,
porque estavam sentados, na primeira fila, o Veríssimo e
o Chico Caruso. Quando juntam dois humoristas, evidentemente vem
sacanagem. Uns dias depois, eu abro o jornal (risos) e vejo aquela
crônica. Aí eu não tive mais sossego! Eu chego
e as pessoas puxam minha calça para olhar a meia. (risos)
Eu, que queria ser famoso pelas coisas que eu escrevo, vou ficar
famoso pelas meias que eu uso. Espetaculares, como diria o Veríssimo.
Já
ouvi críticas que acusam cronistas de usar espaço
precioso de jornal para escrever futilidades como a vista
para o mar do apartamento no lugar de apresentar temas importantes.
O que acha disso?
Zuenir:
Não concordo, porque há outras pessoas que criticam
justamente quando a gente só escreve sobre assuntos pesados,
quando só fala de tragédia. E isso serve para a imprensa
em geral. Perguntam: por que vocês só vêem
esse lado da vida, só vêem as coisas ruins? A imprensa
já tem um pouco daquele princípio de que notícia
boa é notícia ruim. A crítica mais geral,
hoje, é de que os jornais só falam de coisa ruim.
É como se a gente realmente tivesse um olhar meio patológico,
de escolher só as coisas desagradáveis. Então
é o contrário, temos que equilibrar um pouco.
É possível ser otimista no jornalismo?
Zuenir:
O meu olhar, a minha maneira de ver é otimista. Eu sou uma
pessoa otimista. Eu curto um dia de sol, eu curto o Rio de Janeiro
pelas suas belezas, eu sofro com aquela violência. Eu, se
pudesse, só escreveria crônica sobre a praia e sobre
o mar (risos), sobre as mulheres do Rio de Janeiro, sobre aquilo
que o Rio tem e é realmente fascinante que
é esse hedonismo, essa energia vital que tem a cidade, que
tem aquele povo, sobretudo a população mais carente,
mais desprotegida. Se pudesse, eu só olharia esse
lado da vida.
Qual
a importância da crônica de costumes no jornalismo?
Zuenir:
De certa maneira, foi o Brasil que descobriu esse tipo de crônica.
Isso começa já no fim do século XIX com o Machado,
mas a principal caracterização vem nos anos 40, que
é aquela geração maravilhosa, do Rubem Braga,
Fernando Sabino, Otto Lara Rezende, Paulo Mendes Campos. Algumas
das melhores crônicas do Rubem Braga são sobre a falta
de assunto, sobre a amendoeira, ou sobre o homem que vem nadando,
e ele acompanha, e não acontece nada! Esses cronistas nos
ensinaram a olhar aquelas aparentes insignificâncias da vida
e que na verdade são muito significativas. Ao contrário
daquela crítica, esse olhar para as miudezas do cotidiano,
para aquelas coisas que aparentemente não têm importância,
é realmente muito importante. A vida é feita disso.
E, talvez, esse é o grande charme da crônica.
Manchetes
do tipo "mercado assusta-se com nervosismo do dólar",
como se o mercado fosse um animal apavorado, parecem abusivamente
metafóricas. O jornalismo ainda dá conta da realidade?
Zuenir:
Eu acho que não. Sobretudo o que entendemos hoje por realidade.
A realidade pós-moderna, não só no Brasil mas
no mundo, é muito vertiginosa. Tudo é efêmero,
veloz, passageiro, fugaz. A sensação que dá
é a de que vivemos em uma sociedade onde o mundo é
todo descartável, dura o tempo de uma notícia, dura
alguns segundos na televisão, um dia no jornal. Essa é
a sensação que a gente tem. E a gente realmente não
dá conta. Eu acho até que toda a apreensão
seja jornalística, seja literária acaba
sendo mais recriação do que a transcrição
da realidade. A gente está sempre em déficit com a
realidade. A reali-dade ainda bem! é
muito mais rica, muito mais complexa, do que a nossa capacidade
de apreendê-la. Cada vez menos estamos dando conta
dessa realidade tão complexa, que é essa chamada pós-moderna.
O
caso da Agência Estado, que noticiou a visita de um candidato
presidencial à cidade de Palmas que não havia acontecido,
é um acidente isolado ou um sintoma dessa sociedade veloz?
[Nota: A visita constava da agenda do candidato mas foi cancelada
à última hora. A repórter havia redigido um
texto preliminar e enviado as informações. Por um
erro técnico, o texto acabou publicado]
Zuenir:
Acho que é um acidente. Mas nós, jornalistas, precisamos
prestar muita atenção nisso. Por exemplo, eu já
fui morto pela Internet! A Internet já me matou. Um site
de notícias aliás, do Estadão
botou no ar que eu tinha morrido. Isso foi uma coisa que, num primeiro
momento, foi muito engraçada. Mas, enfim, obituários
já estavam sendo feitos, colegas meus até hoje
têm uma raiva danada de mim por isso (risos) estavam
tomando sua cerveja no bar e foram chamados para fazer o meu perfil,
já que eu havia morrido. Tudo isso foi até muito engraçado;
mas, durante pelo menos duas horas, meu filho ficou com essa notícia.
Eu não conseguia desmentir e ele ficou achando que eu tinha
morrido. Eu tenho parentes em outros lugares, e isso foi para o
rádio. Imagina se a minha irmã tivesse ouvido isso?
Enfim,
isso foi uma lição para todos nós. O que produziu
isso? A correria! Aquela ânsia de um furar o outro. Como esse
site tinha sido furado uns dias antes por um outro site
o da Folha então realmente o repórter
se precipitou. E isso ainda foi acontecer comigo, que sou uma figurinha
de fácil apuração no Rio de Janeiro, sou conhecido
no Rio. Pela notícia, o acidente de carro tinha acontecido
ao meio dia e eu tinha morrido às seis da tarde. Imagina,
todo o Rio de Janeiro teria sabido, por causa da minha família,
meus amigos. Eu trabalho em uma revista, em um jornal, meu filho
trabalhava no Jornal do Brasil. Era uma coisa fácil de apurar.
Se isso acontece com uma pessoa de fácil apuração,
imagina com um cidadão menos exposto. Eu chamei muita atenção
para isso na época. Foi uma lição. Adianta
achar que o furo é um valor absoluto e supremo do jornalismo?
Não é! O melhor furo é a qualidade.
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