
Ana Cristina
D'Ângelo Assessora de imprensa da Tim e Olga Frange, coordenadora
do ArtEducação em Uberaba, acompanharam o escritor
no bate-papo com os leitores |
Você
escreveu que a revolução sexual dos anos 60 foi muito
mais teórica do que prática. Explique isso.
Zuenir:
Uma das coisas curiosas de 68 é que grande parte das coisas
que a gente vive hoje foram plantadas em 68. Esse cabelo que você
tem, amarrado atrás, só foi possível por causa
de 68. Se a Juliana estivesse de minissaia eu diria: olha, você
está com essas pernas de fora aí - e você pode
estar! - sem ninguém te atacar nas ruas, por causa de 68.
Ontem fui a uma cachaçaria e observei, em uma mesa, cinco
garotas, sozinhas, tomando chope. Eu falei: que coisa curiosa. Na
minha época eu fui criado em cidade de interior
imagina se menina podia sair pra ir sozinha tomar chope no bar?
Ia ficar mal falada. Então, às vezes a sua geração
nem se dá conta dessas conquistas todas. Pra vocês,
isso que eu disse deve parecer um absurdo, vocês já
nasceram podendo usar cabelo comprido e minissaia. Mas essas coisas
foram conquistas de 68. E cada conquista dessa teve um custo. Imagina,
em 67, sair com esse cabelo na rua! Em alguns casos, as pessoas
jogavam pedras, gritavam bicha, bicha, bicha, veado. Então,
68 teve essa coisa revolucionária de chamar a atenção.
Essas
conquistas não puderam ser realizadas na época?
Zuenir:
Nem sempre realizou. A geração das mulheres daquela
época, de certa maneira, tinha uma teoria, uma coisa na cabeça
o amor livre, o casamento aberto e aquelas coisas todas
mas quando pintava a vida real, o ciúme, aí desmontava
tudo. A cabeça anda mais rápido que a emoção,
do que o afeto. Eu me lembro daquela cena inicial daquele reveillon
[do livro 1968: o ano que não terminou]. O casal
era o mais moderno daquela época, mais pra frente,
e o cara dá uma porrada nela, mete uma bolacha, porque ela
estava dançando com um cara! Podia dançar com todos,
menos com aquele, porque ele tinha ciúmes daquele. Então
toda teoria ia para... (risos). Mas, enfim, em toda revolução
e vejo que houve uma revolução sexual, talvez
tenha sido a única de comportamento sexual apesar
disso, ela se realizou e avançou. Agora, revolução
se faz assim, de idas e vindas. Não é uma coisa fácil,
porque você está lidando com o coração.
A cabeça manda fazer uma coisa mas o coração
diz: não, pô, eu não faço! Isso eu
não faço! Teve essa ambigüidade, muito curiosa,
que não diminui a importância daquela geração
e das suas conquistas.
É
mais difícil ser rebelde hoje?
Zuenir:
Você sabe que eu acho que é? Os meninos fazem muito
uma pergunta parecida com essa: o que você acha dessa juventude
hoje?, não querem mais nada, é uma juventude acomodada,
que não se empolga com nada etc... Eu digo que quem tem
de fazer essa pergunta sou eu para vocês, e não vocês
pra mim! Vocês é quem têm que me responder. Eu
não sei (risos).
Mas,
enfim, vamos tentar encontrar, e aí a gente começa
a conversar, e eu começo a dizer o seguinte: por que, naquela
época, era mais doloroso mas era mais fácil?
Porque você tinha um inimigo muito visível. Você
tinha uma ditadura, tinha um ditador lá, de plantão,
e você lutava contra aquilo, contra aquele cara. O inimigo
tinha rosto, tinha arma na mão, queria te dar porrada. Hoje,
quem é o inimigo? Você falou agora há pouco
no mercado. Pois é, a gente fala mal do mercado, mas o
que é o mercado? Quando você falava mal da ditadura
naquela época, tinha nomes: era o Castelo Branco, era o Costa
e Silva, era o Médici. E não só tinha nome,
como tinha arma na mão!
O
inimigo se declarava.
Zuenir:
Pois é, você lutava contra tanque na rua. Hoje você
vai fazer uma passeata e dificilmente leva porrada, dificilmente
vai preso por isso. Naquele momento, a cada saída você
corria o risco de apanhar, ir preso e às vezes ser torturado.
Era muito mais doloroso, doía muito mais, mas era, digamos,
mais fácil para você ser rebelde.
É
até complicado dizer isso, eu falo com um certo cuidado para
não haver uma leitura equivocada do que estou dizendo. Eu
quero dizer o seguinte: hoje o mundo é muito mais complexo.
Naquele tempo, você tinha uma ideologia que sempre te garantia
qualquer posição. Você já tinha a posição
anterior. De que lado esse cara está? Está do meu
lado ou está contra mim? Se está contra mim, pronto:
é o meu inimigo. Hoje, onde está o mal? O mal
às vezes está junto do bem, está dentro do
bem, misturado com o bem. Então é uma confusão
muito grande. Você querer que um menino de 18 ou 19 anos entenda
este mundo... eu que tenho 71, na maioria das vezes não entendo,
(risos) é realmente difícil. A gente tinha naquela
época um mundo maniqueizado. Você tinha de um lado
as trevas e de outro a luz, eu estou do lado do bem e do lado de
lá é o mal. Era mais fácil a ação
política, a tomada de posição e a radicalização.
Hoje você tem um mundo muito mais ambíguo. É
mais difícil realmente, hoje, ser rebelde.
Isso
me lembra o Bush. Para você, o que significa esse retorno,
nos dias de hoje, ao maniqueísmo do bem contra o mal?
Zuenir:
Quando você cria esse maniqueísmo, é muito mais
fácil dizer que o mal está do outro lado e você,
portanto, está do lado do bem. Ele criou esse negócio
chamado eixo do mal, quando, na verdade, no meu ponto de vista,
o mal é ele.
Por
que jornalista de cidade grande costuma achar que jornalista de
cidade pequena é débil mental?
Zuenir:
Pois é, porque nós somos débeis mentais auto-suficientes,
muito metidos à besta, muito etnocêntricos. O etnocentrismo
é aquela coisa: a gente acha que o mundo gira em torno do
umbigo da gente. E isso, de maneira geral, não é só
jornalista não, são os intelectuais em geral. A gente
acha que tudo passa pelo eixo Rio-São Paulo. O que não
passa por ali, não existe. A gente acha que não há
inteligência fora do eixo Rio-São Paulo. E aí,
quando a gente viaja e eu tenho viajado muito, e tenho constatado
chego em cidades (eu já não gosto de usar essa
palavra interior, porque o etnocentrismo já aparece
aí: eu sou o centro e o resto é periferia) e tenho
me surpreendido muito encontrando inteligência, e tenho escrito
exatamente por isso. Me surpreendo, não escondo essa surpresa
que eu tenho, sabendo que é uma surpresa cheia de preconceito,
cheia de estereótipo, de chegar e dizer assim, como acabei
de contar: pô, encontrei uma repórter maravilhosa em
Belo Horizonte que é capaz de fazer uma entrevista comigo,
por telefone e registrar o que eu disse de forma impecável.
Eu canso de dar entrevista em jornais de São Paulo, jornais
do Rio, e muitas das vezes sofro com a transcrição.
Então a gente tem preconceitos muito grandes em relação
àquilo que não está em volta de nosso umbigo.
Pra
mim, tem sido uma experiência muito rica essa de chegar às
cidades pequenas e encontrar pessoas interessantíssimas.
Eu já escrevi sobre isso, dizendo o seguinte: até
porque as condições de vida facilitam, você
não tem o trânsito que tem em São Paulo, que
fica duas horas dentro do carro duas horas pra ir e duas
pra voltar! , você não tem aquela aflição
da violência ainda não tem, tomara que
não venha a ter, no nível que a gente tem no Rio
e então permite ter uma vida mais contemplativa, no sentido
de que as pessoas prestam mais atenção nas coisas.
Eu encontro pessoas nesses lugares que conhecem a minha obra melhor
do que eu, porque leram com mais atenção. As pessoas
prestam atenção em você, têm um respeito,
conversam mais. Depois de uma palestra ainda vai jantar, você
faz amigos eu tenho feito amigos em 24 horas. Então,
pra mim, tem sido uma coisa! Eu chego no Rio contando isso,
e os colegas se surpreendem. Porque, realmente, de lá você
não faz idéia! Você acha que está tudo
ali, o resto é o resto. Escrever sobre isso é uma
espécie de auto-crítica que faço.
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