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Matéria publicada no Revelação (jornal-laboratório do curso de Comunicação Social da Universidade de Uberaba) n. 222, em 1 de outubro de 2002

andre.azevedo@uniube.br


Ana Cristina D'Ângelo Assessora de imprensa da Tim e Olga Frange, coordenadora do ArtEducação em Uberaba, acompanharam o escritor no bate-papo com os leitores

Você escreveu que a revolução sexual dos anos 60 foi muito mais teórica do que prática. Explique isso.

Zuenir: Uma das coisas curiosas de 68 é que grande parte das coisas que a gente vive hoje foram plantadas em 68. Esse cabelo que você tem, amarrado atrás, só foi possível por causa de 68. Se a Juliana estivesse de minissaia eu diria: olha, você está com essas pernas de fora aí - e você pode estar! - sem ninguém te atacar nas ruas, por causa de 68. Ontem fui a uma cachaçaria e observei, em uma mesa, cinco garotas, sozinhas, tomando chope. Eu falei: que coisa curiosa. Na minha época — eu fui criado em cidade de interior — imagina se menina podia sair pra ir sozinha tomar chope no bar? Ia ficar mal falada. Então, às vezes a sua geração nem se dá conta dessas conquistas todas. Pra vocês, isso que eu disse deve parecer um absurdo, vocês já nasceram podendo usar cabelo comprido e minissaia. Mas essas coisas foram conquistas de 68. E cada conquista dessa teve um custo. Imagina, em 67, sair com esse cabelo na rua! Em alguns casos, as pessoas jogavam pedras, gritavam bicha, bicha, bicha, veado. Então, 68 teve essa coisa revolucionária de chamar a atenção.

Essas conquistas não puderam ser realizadas na época?

Zuenir: Nem sempre realizou. A geração das mulheres daquela época, de certa maneira, tinha uma teoria, uma coisa na cabeça — o amor livre, o casamento aberto e aquelas coisas todas — mas quando pintava a vida real, o ciúme, aí desmontava tudo. A cabeça anda mais rápido que a emoção, do que o afeto. Eu me lembro daquela cena inicial daquele reveillon [do livro 1968: o ano que não terminou]. O casal era o mais moderno daquela época, mais pra frente, e o cara dá uma porrada nela, mete uma bolacha, porque ela estava dançando com um cara! Podia dançar com todos, menos com aquele, porque ele tinha ciúmes daquele. Então toda teoria ia para... (risos). Mas, enfim, em toda revolução — e vejo que houve uma revolução sexual, talvez tenha sido a única de comportamento sexual — apesar disso, ela se realizou e avançou. Agora, revolução se faz assim, de idas e vindas. Não é uma coisa fácil, porque você está lidando com o coração. A cabeça manda fazer uma coisa mas o coração diz: não, pô, eu não faço! Isso eu não faço! Teve essa ambigüidade, muito curiosa, que não diminui a importância daquela geração e das suas conquistas.

É mais difícil ser rebelde hoje?

Zuenir: Você sabe que eu acho que é? Os meninos fazem muito uma pergunta parecida com essa: o que você acha dessa juventude hoje?, não querem mais nada, é uma juventude acomodada, que não se empolga com nada etc... Eu digo que quem tem de fazer essa pergunta sou eu para vocês, e não vocês pra mim! Vocês é quem têm que me responder. Eu não sei (risos).

Mas, enfim, vamos tentar encontrar, e aí a gente começa a conversar, e eu começo a dizer o seguinte: por que, naquela época, era mais doloroso mas era mais fácil? Porque você tinha um inimigo muito visível. Você tinha uma ditadura, tinha um ditador lá, de plantão, e você lutava contra aquilo, contra aquele cara. O inimigo tinha rosto, tinha arma na mão, queria te dar porrada. Hoje, quem é o inimigo? Você falou agora há pouco no mercado. Pois é, a gente fala mal do mercado, mas o que é o mercado? Quando você falava mal da ditadura naquela época, tinha nomes: era o Castelo Branco, era o Costa e Silva, era o Médici. E não só tinha nome, como tinha arma na mão!

O inimigo se declarava.

Zuenir: Pois é, você lutava contra tanque na rua. Hoje você vai fazer uma passeata e dificilmente leva porrada, dificilmente vai preso por isso. Naquele momento, a cada saída você corria o risco de apanhar, ir preso e às vezes ser torturado. Era muito mais doloroso, doía muito mais, mas era, digamos, mais fácil para você ser rebelde.

É até complicado dizer isso, eu falo com um certo cuidado para não haver uma leitura equivocada do que estou dizendo. Eu quero dizer o seguinte: hoje o mundo é muito mais complexo. Naquele tempo, você tinha uma ideologia que sempre te garantia qualquer posição. Você já tinha a posição anterior. De que lado esse cara está? Está do meu lado ou está contra mim? Se está contra mim, pronto: é o meu inimigo. Hoje, onde está o mal? O mal às vezes está junto do bem, está dentro do bem, misturado com o bem. Então é uma confusão muito grande. Você querer que um menino de 18 ou 19 anos entenda este mundo... eu que tenho 71, na maioria das vezes não entendo, (risos) é realmente difícil. A gente tinha naquela época um mundo maniqueizado. Você tinha de um lado as trevas e de outro a luz, eu estou do lado do bem e do lado de lá é o mal. Era mais fácil a ação política, a tomada de posição e a radicalização. Hoje você tem um mundo muito mais ambíguo. É mais difícil realmente, hoje, ser rebelde.

Isso me lembra o Bush. Para você, o que significa esse retorno, nos dias de hoje, ao maniqueísmo do bem contra o mal?

Zuenir: Quando você cria esse maniqueísmo, é muito mais fácil dizer que o mal está do outro lado e você, portanto, está do lado do bem. Ele criou esse negócio chamado eixo do mal, quando, na verdade, no meu ponto de vista, o mal é ele.

Por que jornalista de cidade grande costuma achar que jornalista de cidade pequena é débil mental?

Zuenir: Pois é, porque nós somos débeis mentais auto-suficientes, muito metidos à besta, muito etnocêntricos. O etnocentrismo é aquela coisa: a gente acha que o mundo gira em torno do umbigo da gente. E isso, de maneira geral, não é só jornalista não, são os intelectuais em geral. A gente acha que tudo passa pelo eixo Rio-São Paulo. O que não passa por ali, não existe. A gente acha que não há inteligência fora do eixo Rio-São Paulo. E aí, quando a gente viaja — e eu tenho viajado muito, e tenho constatado — chego em cidades (eu já não gosto de usar essa palavra interior, porque o etnocentrismo já aparece aí: eu sou o centro e o resto é periferia) e tenho me surpreendido muito encontrando inteligência, e tenho escrito exatamente por isso. Me surpreendo, não escondo essa surpresa que eu tenho, sabendo que é uma surpresa cheia de preconceito, cheia de estereótipo, de chegar e dizer assim, como acabei de contar: pô, encontrei uma repórter maravilhosa em Belo Horizonte que é capaz de fazer uma entrevista comigo, por telefone e registrar o que eu disse de forma impecável. Eu canso de dar entrevista em jornais de São Paulo, jornais do Rio, e muitas das vezes sofro com a transcrição. Então a gente tem preconceitos muito grandes em relação àquilo que não está em volta de nosso umbigo.

Pra mim, tem sido uma experiência muito rica essa de chegar às cidades pequenas e encontrar pessoas interessantíssimas. Eu já escrevi sobre isso, dizendo o seguinte: até porque as condições de vida facilitam, você não tem o trânsito que tem em São Paulo, que fica duas horas dentro do carro — duas horas pra ir e duas pra voltar! —, você não tem aquela aflição da violência — ainda não tem, tomara que não venha a ter, no nível que a gente tem no Rio — e então permite ter uma vida mais contemplativa, no sentido de que as pessoas prestam mais atenção nas coisas. Eu encontro pessoas nesses lugares que conhecem a minha obra melhor do que eu, porque leram com mais atenção. As pessoas prestam atenção em você, têm um respeito, conversam mais. Depois de uma palestra ainda vai jantar, você faz amigos — eu tenho feito amigos em 24 horas. Então, pra mim, tem sido uma coisa! Eu chego no Rio contando isso, e os colegas se surpreendem. Porque, realmente, de lá você não faz idéia! Você acha que está tudo ali, o resto é o resto. Escrever sobre isso é uma espécie de auto-crítica que faço.

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