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Matéria publicada no Revelação (jornal-laboratório do curso de Comunicação Social da Universidade de Uberaba) n. 265, em 21 de outubro de 2003

andre.azevedo@uniube.br

 

André Azevedo da Fonseca

Eu estava aguardando uma boa oportunidade, um acontecimento qualquer que servisse de "gancho" para encaixar essa crônica, escrita há dois anos. Como ela não veio, conto-a de forma inoportuna mesmo.

No dia 27 de julho de 2001 o pianista Sylvio Robazzi apresentou um emocionante recital de piano na Centro Cultural Cecília Palmério, em Uberaba. Foram executadas peças fundamentais da tradição clássica, divididas em dois programas — um de compositores mais antigos e outro de músicas do século XX. Sylvio Robazzi é um pianista seguro, desses que sabem dosar a sensibilidade e fúria com a experiência da maturidade. Um programão, desses que nos fazem sair pessoas melhores.

No entanto, como sabemos, parte dos consumidores de arte o fazem não pelo refinamento da sensibilidade, ou pelo mergulho inconseqüente na alma; mas como encargo para obter distinção social, em tributo à conveniência de parecer sofisticado. Assim, ser visto em um recital de piano é equivalente a receber da sociedade um diplominha cultural invisível, um atestado de burguês-culto. Esses consumidores, evidentemente, não se deixam envolver na música, não vagabundeiam na multiplicidade de caminhos das harmonias, não se perdem na arquitetura invisível do labirinto de sons. Pragmáticos, acostumados com certezas, negócios, decisões, resultados e recompensas, são impacientes, aborrecidos, querem que a coisa acabe logo para ver logo cumprido o compromisso.

Para eles, ouvir Mendelsson se trata, portanto, de um tédio insuportável, uma espera no dentista, um mal necessário para cumprir com as obrigações simbólicas de classe. Esse público suporta com muita dificuldade uma peça inteira de Vivaldi que, diferentemente do jingle de propaganda de desodorante, dura mais que trinta segundos.

Logo chegarei no ponto. A terceira peça apresentada por Robazzi foi Sonata ao Luar, de Beethoven. Linda e triste, envolvente e obscura, as notas cambaleiam passos chorosos no piano; vacilam, hesitam, rodeiam, retraem-se em pulsões fluídas de sonho. Lenta como a própria melancolia, em seu primeiro momento, a música é composta sobretudo por seus silêncios, que dizem mais à sensibilidade, naquele contexto, do que faria qualquer nota. Essas ausências pontuadas são os acordes inalcançáveis que Beethoven dedilhou para desnudar a tristeza muda de Sonata ao Luar.

Sylvio Robazzi, sem partitura, interpretou a peça com dose serena de emoção. Para hipnotizar-se com esta música, para mergulhar nesse oceano de sensações, bastava que o ouvinte se deixasse levar... O que o músico pede em troca dessa sublime experiência é apenas uma coisa: que o público peste a mínima atenção.

Mas as hordas de consumidores impacientes não são capazes dessas sutilezas de espírito. Suportar um concerto de piano para elevar o status cultural é difícil, mas pedir que prestem atenção por 10 minutos, ora, isso já é demais! Solicitar que fiquem calados então, isso sim é quase um ultraje. Acostumados à algazarra onipresente da televisão e dos eventos sociais, a experiência do silêncio torna-se perturbadora, pois provoca algo que estes consumidores não podem suportar por muito tempo: a introspecção, a auto-reflexão.

Por tudo isso, diante das insistentes quietudes de Sonata ao Luar, as madames não tinham outra alternativa a não ser preencher de alguma forma os insuportáveis silêncios de Beethoven. Assim, sem combinar, passaram a subir e descer atabalhoadamente as escadas, pisando firme com seus tamancos, pocotó, pocotó, caprichando na percussão plástica dos seus saltos, pocotó, pocotó, que subiam e desciam, subiam e desciam os degraus. Um sol do piano, singelo e triste, era pisoteado pelos saltos alvoroçados; um sussurrado e inocente si, minúsculo em seu murmúrio, era febrilmente derrotado por relógios digitais que tiquetaqueavam pi pi pi pi; um sumido entre dois dós não resistia e sucumbia aos cochichos de dondocas e almofadinhas que conversavam sobre o que fazer depois do recital. Essa música é linda, não é? É! Como acho linda! Linda linda linda! É mesmo, linda! Linda mesmo! Linda! Que fome! Onde vamos comer? Ai, vibrou! Ah ah ah ah...

A guerra estava cada vez mais desigual: enquanto Robazzi, íntegro, mantinha a música em seu volume acústico natural, as hordas de madames pocotó pocotó, pi pi pi, blá blá blá atacavam ferozmente. Mas o tempo estava ao lado de Ludwig, chegaria a hora da explosão de fúria em Sonata ao Luar. Quem conhece a música sabe desse segundo momento. Assim, as notas ensaiaram a triste despedida, deixaram-se morrer num grave magoado, pareceram render-se à evidência da vitória dos bárbaros, à apoteose definitiva do salto alto, ao triunfo do despertador de relogiozinho digital. Para muitos, que nunca ouviram a música, que alívio, pensaram, era o término da ladainha! Alguns chegaram a estalar palmas. Ufa, acabou, enfim!

Mas da morte silenciosa, aparentemente humilhante, eis que renasce, ainda meio cambaleante, uma frase musical — trôpega e longínqua, como aqueles andarilhos que avistamos longe na rodovia. Os relógios e saltos ficam em polvorosa — pocotó pocotó, pi pi pi pi pi pi — pois já parecem pressentir, por algum instinto impossível, o cheiro da tempestade. Gota a gota, eis que a melodia cresce ameaçadora, feito a sombra de um predador, mas recua, em estratégia inesperada, como se tragada por um manto de silêncio.

Os tamancos recrudescem os pocotó pocotó, mas os movimentos sinuosos de Beethoven tornam-se cada vez mais insolentes, ameaçadores. Um TLAM TLAM! quase derruba as madames das escadas. Um golpe duro em um dó grave do piano faz as dondocas tremerem e engolirem seco. Todas piscam os olhos ao mesmo tempo, levantando no salão uma poeira de rímel. Sonata ao Luar se recurva e rasteja feito serpente... contorce o ventre no lodo... arma o bote... chaqualha o guizo... mas finge que se distrai... finge que a inocência da renascente melodia é sua verdadeira natureza... fecha os olhos e acompanha o ritmo leve com a cabeça... recua... volta a atenção para a harmonia dos acordes... e brutalmente dá o bote! TLAM TLAM TLAMMM!

Seu golpe vem arrasador como uma tormenta, como um abrir de comportas de uma represa contida até o limite. Com a fúria de um Poseidon enlouquecido, Robazzi desencadeia a tempestade suprema para liquidar as hordas inimigas e enxotá-las ao precipício! Como a Hidra dos pântanos de Lerna, as notas multiplicam-se infinitamente, e a cada uma que se extingue, outras brotam dos dedos do pianista.

Até então, os saltos, relógios e cochichos, que souberam tão bem atacar os silêncios, tremeram arregalados perante a tempestade de notas jorradas do piano. Como em uma vingança avassaladora de todos os deuses dos oceanos, Sonata ao Luar reagia com fúria desproporcional ao ataque sofrido. Uma tropa de celulares foi chamada às pressas pelo comando inimigo e passou a atacar Beethoven com toques seqüenciais de chamadas que reproduziam as primeiras notas digitalizadas de Bolero, de Ravel; Carmina Burana, de Carl Orff; Suite Nº1 em Dó Maior, de Bach; e As Quatro Estações, de Vivaldi; e Stayin Alive, dos Bee Gees; mas neste momento ataque foi prontamente repelido por um exército invisível invocado justamente... pelo público!

Sim, a luta estava tão emocionante que a arena inteira passou a lutar ao lado de Sylvio e Ludwig. Olhares fulminantes, cutucões e beliscões dos próprios espectadores ajudaram a abafar as cavalarias de tamancos, as fragatas de celulares, as baterias de despertadores de relógio e as tropas de cochichos cujos cadáveres foram deixados apodrecendo no campo de batalha. Um massacre! Como Átila, o huno, Beethoven circulava triunfal pelo anfiteatro Cecília Palmério, cavalgando em um unicórnio fabuloso, segurando pelos cabelos os corpos esfolados dos inimigos agonizantes. Depois de uma luta árdua, Beethoven vencera, afinal! Só restava a Sonata ao Luar concluir-se num golpe de misericórdia para exibir ao público em êxtase a cabeça ensangüentada, decepada do inimigo. E a última nota ressoou até o fim. Catarse total! O auditório aplaudiu de pé, enquanto Robazzi, ainda absorto na música, sem perceber a guerra que se travara, agradecia com um sorriso e um aceno de cabeça os aplausos.

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