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André
Azevedo da Fonseca
Eu
estava aguardando uma boa oportunidade, um acontecimento qualquer
que servisse de "gancho" para encaixar essa crônica,
escrita há dois anos. Como ela não veio, conto-a de
forma inoportuna mesmo.
No
dia 27 de julho de 2001 o pianista Sylvio Robazzi apresentou um
emocionante recital de piano na Centro Cultural Cecília Palmério,
em Uberaba. Foram executadas peças fundamentais da tradição
clássica, divididas em dois programas um de compositores
mais antigos e outro de músicas do século XX. Sylvio
Robazzi é um pianista seguro, desses que sabem dosar a sensibilidade
e fúria com a experiência da maturidade. Um programão,
desses que nos fazem sair pessoas melhores.
No
entanto, como sabemos, parte dos consumidores de arte o fazem não
pelo refinamento da sensibilidade, ou pelo mergulho inconseqüente
na alma; mas como encargo para obter distinção social,
em tributo à conveniência de parecer sofisticado. Assim,
ser visto em um recital de piano é equivalente a receber
da sociedade um diplominha cultural invisível, um atestado
de burguês-culto. Esses consumidores, evidentemente, não
se deixam envolver na música, não vagabundeiam na
multiplicidade de caminhos das harmonias, não se perdem na
arquitetura invisível do labirinto de sons. Pragmáticos,
acostumados com certezas, negócios, decisões, resultados
e recompensas, são impacientes, aborrecidos, querem que a
coisa acabe logo para ver logo cumprido o compromisso.
Para
eles, ouvir Mendelsson se trata, portanto, de um tédio insuportável,
uma espera no dentista, um mal necessário para cumprir com
as obrigações simbólicas de classe. Esse público
suporta com muita dificuldade uma peça inteira de Vivaldi
que, diferentemente do jingle de propaganda de desodorante,
dura mais que trinta segundos.
Logo
chegarei no ponto. A terceira peça apresentada por Robazzi
foi Sonata ao Luar, de Beethoven. Linda e triste, envolvente
e obscura, as notas cambaleiam passos chorosos no piano; vacilam,
hesitam, rodeiam, retraem-se em pulsões fluídas de
sonho. Lenta como a própria melancolia, em seu primeiro momento,
a música é composta sobretudo por seus silêncios,
que dizem mais à sensibilidade, naquele contexto, do que
faria qualquer nota. Essas ausências pontuadas são
os acordes inalcançáveis que Beethoven dedilhou para
desnudar a tristeza muda de Sonata ao Luar.
Sylvio
Robazzi, sem partitura, interpretou a peça com dose serena
de emoção. Para hipnotizar-se com esta música,
para mergulhar nesse oceano de sensações, bastava
que o ouvinte se deixasse levar... O que o músico pede em
troca dessa sublime experiência é apenas uma coisa:
que o público peste a mínima atenção.
Mas
as hordas de consumidores impacientes não são capazes
dessas sutilezas de espírito. Suportar um concerto de piano
para elevar o status cultural é difícil, mas
pedir que prestem atenção por 10 minutos, ora, isso
já é demais! Solicitar que fiquem calados então,
isso sim é quase um ultraje. Acostumados à algazarra
onipresente da televisão e dos eventos sociais, a experiência
do silêncio torna-se perturbadora, pois provoca algo que estes
consumidores não podem suportar por muito tempo: a introspecção,
a auto-reflexão.
Por
tudo isso, diante das insistentes quietudes de Sonata ao Luar,
as madames não tinham outra alternativa a não ser
preencher de alguma forma os insuportáveis silêncios
de Beethoven. Assim, sem combinar, passaram a subir e descer atabalhoadamente
as escadas, pisando firme com seus tamancos, pocotó, pocotó,
caprichando na percussão plástica dos seus saltos,
pocotó, pocotó, que subiam e desciam, subiam
e desciam os degraus. Um sol do piano, singelo e triste,
era pisoteado pelos saltos alvoroçados; um sussurrado e inocente
si, minúsculo em seu murmúrio, era febrilmente
derrotado por relógios digitais que tiquetaqueavam pi pi
pi pi; um ré sumido entre dois dós não
resistia e sucumbia aos cochichos de dondocas e almofadinhas que
conversavam sobre o que fazer depois do recital. Essa música
é linda, não é? É! Como acho linda!
Linda linda linda! É mesmo, linda! Linda mesmo! Linda! Que
fome! Onde vamos comer? Ai, vibrou! Ah ah ah ah...
A
guerra estava cada vez mais desigual: enquanto Robazzi, íntegro,
mantinha a música em seu volume acústico natural,
as hordas de madames pocotó pocotó, pi pi
pi, blá blá blá atacavam ferozmente.
Mas o tempo estava ao lado de Ludwig, chegaria a hora da explosão
de fúria em Sonata ao Luar. Quem conhece a música
sabe desse segundo momento. Assim, as notas ensaiaram a triste despedida,
deixaram-se morrer num grave magoado, pareceram render-se à
evidência da vitória dos bárbaros, à
apoteose definitiva do salto alto, ao triunfo do despertador de
relogiozinho digital. Para muitos, que nunca ouviram a música,
que alívio, pensaram, era o término da ladainha! Alguns
chegaram a estalar palmas. Ufa, acabou, enfim!
Mas
da morte silenciosa, aparentemente humilhante, eis que renasce,
ainda meio cambaleante, uma frase musical trôpega e
longínqua, como aqueles andarilhos que avistamos longe na
rodovia. Os relógios e saltos ficam em polvorosa pocotó
pocotó, pi pi pi pi pi pi pois já parecem pressentir,
por algum instinto impossível, o cheiro da tempestade. Gota
a gota, eis que a melodia cresce ameaçadora, feito a sombra
de um predador, mas recua, em estratégia inesperada, como
se tragada por um manto de silêncio.
Os
tamancos recrudescem os pocotó pocotó, mas
os movimentos sinuosos de Beethoven tornam-se cada vez mais insolentes,
ameaçadores. Um TLAM TLAM! quase derruba as madames das escadas.
Um golpe duro em um dó grave do piano faz as dondocas tremerem
e engolirem seco. Todas piscam os olhos ao mesmo tempo, levantando
no salão uma poeira de rímel. Sonata ao Luar
se recurva e rasteja feito serpente... contorce o ventre no lodo...
arma o bote... chaqualha o guizo... mas finge que se distrai...
finge que a inocência da renascente melodia é sua verdadeira
natureza... fecha os olhos e acompanha o ritmo leve com a cabeça...
recua... volta a atenção para a harmonia dos acordes...
e brutalmente dá o bote! TLAM TLAM TLAMMM!
Seu
golpe vem arrasador como uma tormenta, como um abrir de comportas
de uma represa contida até o limite. Com a fúria de
um Poseidon enlouquecido, Robazzi desencadeia a tempestade suprema
para liquidar as hordas inimigas e enxotá-las ao precipício!
Como a Hidra dos pântanos de Lerna, as notas multiplicam-se
infinitamente, e a cada uma que se extingue, outras brotam dos dedos
do pianista.
Até
então, os saltos, relógios e cochichos, que souberam
tão bem atacar os silêncios, tremeram arregalados perante
a tempestade de notas jorradas do piano. Como em uma vingança
avassaladora de todos os deuses dos oceanos, Sonata ao Luar
reagia com fúria desproporcional ao ataque sofrido. Uma tropa
de celulares foi chamada às pressas pelo comando inimigo
e passou a atacar Beethoven com toques seqüenciais de chamadas
que reproduziam as primeiras notas digitalizadas de Bolero,
de Ravel; Carmina Burana, de Carl Orff; Suite Nº1
em Dó Maior, de Bach; e As Quatro Estações,
de Vivaldi; e Stayin Alive, dos Bee Gees; mas neste momento
ataque foi prontamente repelido por um exército invisível
invocado justamente... pelo público!
Sim,
a luta estava tão emocionante que a arena inteira passou
a lutar ao lado de Sylvio e Ludwig. Olhares fulminantes, cutucões
e beliscões dos próprios espectadores ajudaram a abafar
as cavalarias de tamancos, as fragatas de celulares, as baterias
de despertadores de relógio e as tropas de cochichos cujos
cadáveres foram deixados apodrecendo no campo de batalha.
Um massacre! Como Átila, o huno, Beethoven circulava triunfal
pelo anfiteatro Cecília Palmério, cavalgando em um
unicórnio fabuloso, segurando pelos cabelos os corpos esfolados
dos inimigos agonizantes. Depois de uma luta árdua, Beethoven
vencera, afinal! Só restava a Sonata ao Luar concluir-se
num golpe de misericórdia para exibir ao público em
êxtase a cabeça ensangüentada, decepada do inimigo.
E a última nota ressoou até o fim. Catarse total!
O auditório aplaudiu de pé, enquanto Robazzi, ainda
absorto na música, sem perceber a guerra que se travara,
agradecia com um sorriso e um aceno de cabeça os aplausos.
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