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Economia
da contemplação
"Temos
que voltar a interpretar"
Sociólogo
analisa importância econômica do turismo e compara o
patrimônio cultural ao rio de Heráclito
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Luís
Sérgio Lopes pergunta: quem acabou com Uberaba?
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André
Azevedo da Fonseca
O sociólogo Luís Sérgio Lopes está
concluindo o doutorado em Filosofia pela Escola de Altos Estudos em
Ciências Sociais, em Paris, e esteve por três anos morando
na França. Em 2003, voltou ao Brasil e veio dar aulas de Sociologia
e Filosofia na Uniube.
Em
entrevista a reportagem, Luís Sérgio declarou sua
admiração à exuberância da arquitetura
de Uberaba do começo do século quando pôde
observar um painel de fotografias antigas em um supermercado
mas também seu espanto ao verificar que aquela cidade belíssima
já foi toda destruída. "Quem são os responsáveis
por evitar que Uberaba, hoje, seja uma cidade turística?",
desafia.
Pergunta:
Quando você viu aquele mural de fotos antigas, o que lhe ocorreu?
Luís
Sérgio Lopes: Tem um supermercado aqui próximo
à universidade, e tem um painel inteiro lá, ocupando
praticamente toda aquela parte frontal, com fotos antigas de Uberaba.
Eu fiquei espantado! Uberaba é tão bonita assim, e
ninguém sabe?
A
Uberaba que você vê hoje é uma Uberaba sem forma,
sem um patrimônio histórico definido, uma cara definida.
Então eu virei a cabeça e, pôxa
Até
conversei com alguém que estava no supermercado: o que fizeram
com Uberaba? O que aconteceu? Quem acabou com Uberaba? Quem foram
os responsáveis pela destruição dessa fachada
arquitetural de Uberaba? Ao mesmo tempo, quem é o responsável
por evitar que Uberaba, hoje, seja uma cidade turística?
Imagine o prejuízo que tem Uberaba, por causa do que fizeram
com a cidade.
Pergunta:
O que significa morar em uma cidade que, como Paris, preserva o
patrimônio cultural?
Luís
Sérgio: Em Paris você está, ao mesmo tempo,
na capital mundial praticamente todos os povos da Europa
afluem para Paris, todos vão a Paris e apesar de ser
o centro mundial, considerada a capital do mundo hoje, é
uma cidade onde os prédios têm baixa estatura, existe
uma legislação muito rigorosa para que eles não
tenham determinadas dimensões. E são prédios
antiquíssimos, que mantém a Paris dos séculos
anteriores.
Há
uma legislação rigorisíssima sobre a ocupação
do espaço em Paris. E vale a pena destacar que talvez uma
de suas maiores receitas, hoje, seja o turismo. Então, quando
você chega de um lugar superdesenvolvido, que têm
a tradição de preservar seu meio paisagístico,
arquitetônico chega no Brasil e vê a falta de
cuidado que a gente tem ao querer ser desenvolvido
Em
Uberaba você tem a impressão de que os caras quiseram
ser desenvolvidos! Sei lá quem foram os responsáveis,
se foram fazendeiros, governantes que transformaram a cidade em
caixas sem graça. Acabaram com a cara da cidade com a idéia
de modernizar, enquanto que os países superdesenvolvidos
mantêm a sua estrutura. Tem museus medievais no centro de
Paris, praças medievais no centro de Paris!
arquivo
Eliane Marques

Cine
São Luís, em foto da primeira metade do século
XX
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Pergunta:
De onde vem essa idéia de que para desenvolver tem que destruir
sua memória?
Luís
Sérgio: A gente pode dizer que a idéia de desenvolver
e civilizar é sempre um desafio contra tudo que lembra a
natureza, contra tudo que lembra o antigo. A partir do mundo moderno,
existe uma tentação olímpica de destruir tudo
que se parece com o mais antigo possível. A idéia
de modernidade aparece como uma febre.
É
claro que na Europa essa febre tinha determinados controles, porque
quando a modernidade aparece a Europa já tinha um acúmulo
de espiritualidade, de artisticidade enfim, obras
então não era fácil você pensar em destruir
simplesmente o antigo. Assim as coisas se preservaram.
Agora,
no Brasil, nós não tínhamos essa tradição
artística. Essa idéia de modernidade veio deturpada.
Então tudo que é antigo, que é indígena,
que é afro, é algo que lembra a natureza. E se é
algo que lembra a natureza, é algo que se opõe à
idéia de civilização. A dicotomia dos trópicos
parece que foi muito mal trabalhada. Quem é que iria dizer
que ia proteger? Nós não tínhamos uma arte
muito desenvolvida no século XVI, XVII, XVIII. Praticamente
foi o movimento artístico do século XIX que influenciou
nosso movimento artístico.
Então,
a gente não se reconhece, a gente não quer reconhecer
a nossa cara, não quer saber dos nossos passos dados, a gente
não quer se identificar em fotos antigas. É uma vontade
de negar a nossa identidade, talvez isso explique. Vontade de querer
parecer o que a gente não é. E é uma coisa
louca. Se ao mesmo tempo você tem Ouro Preto, que mantém
essa tradição, por que Uberaba não mantém?
Essa é a questão.
Pergunta:
Por que se deve preservar o patrimônio histórico?
Luís
Sérgio: Existem dois motivos. Um motivo cultural e um
motivo que a gente é obrigado a considerar
é o econômico, em função do turismo.
Porque o turismo é uma atividade que tem tudo de auto-sustentabilidade.
Aquela economia predadora dos direitos individuais, da exploração
do trabalho humano, ela hoje pode se deslocar para uma exploração
da contemplação.
A
idéia de contemplar bate de frente com a idéia da
prática, da tal da praxis, que a gente herda do mundo
moderno. A idéia de transformar tudo que está ao seu
redor. Então essa idéia econômica que está
colocada no turismo parece que se alia com essa idéia de
contemplação do patrimônio cultural. Aí,
a economia e a cultura conseguem dialogar melhor, porque estimular
a contemplação de prédios, a contemplação
de rios, é um paradigma diferente de se relacionar com o
objeto, de se relacionar com a natureza. Contemplar, até
um tempo atrás, era pecado! Na época, por exemplo,
das transformações sociais, Marx já havia dito
que nós estamos aí para transformar, e não
para interpretar. Então a contemplação ficou
durante muito tempo desfalcada é pecado, é
crime contemplar, temos que mudar constantemente! Essa febre prática,
da filosofia prática de querer transformar as coisas, hoje
em dia não resolve muito. Nós temos que voltar a interpretar,
e para interpretar
você tem um pequeno rio que passa
na cidade, se mantiver esse rio, você vai observar pessoas
simples, sem salário, sem dinheiro, sem casa, e mesmo assim
elas vão à beira do rio olhar o rio passar.
Heráclito
já dizia, no século VI antes de Cristo, que nós
não entramos duas vezes no mesmo rio. O rio que passa dentro
de uma cidade dá a idéia de movimento. Essa idéia
de passagem, que as pessoas que vivem em uma vida miserável,
mesmo essas pessoas têm um espírito que consegue apreciar
o rio, e através disso elas estão querendo dizer alguma
coisa.
Já
estive em Rio Branco, no Acre, em uma cidade que não tem
um patrimônio histórico, mas tem um rio, barrento,
que passa, e você observa pessoas que chegam da floresta e
ficam vendo o rio passar, namorando e tal. Então o patrimônio
histórico tem algo de rio também, porque é
algo que passou, e algo que passou te leva a algo que poderá
vir também. Então se você destrói o patrimônio
histórico, você destrói essa possibilidade de
ver as coisas passarem. Essa idéia de contemplar o movimento,
essa idéia de rio, de Heráclito, pode ser transferida
para indicar essa importância do patrimônio histórico.
Essa contemplação faz parte da construção
do seu espírito.
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