
Roberto
Drummond ficou mundialmente conhecido depois de publicar o romance
Hilda Furacão |
Será
que a realidade é apenas um alicerce para os nossos sonhos?
Drummond:
O diabo é que o sonho da gente é
um sonho perdido. O presidente da República, a política
econômica... Meu próximo livro chama-se Os mortos
não dançam valsa. É um livro existencialista,
mas sobre as coisas simples que a gente não faz, sonhos e
quimeras pequenininhos que a gente não faz, porque a gente
não tem condições de fazer ou porque a gente
depende de um punhado de coisas.
As
melhores lembranças da vida são os sonhos e ilusões?
Drummond:
Ah, isso não. As melhores lembranças
da vida são realidade e eu trato disso no Cheiro de Deus.
Só que passam rápido. É um cavalo bravo, é
um beija-flor que chega à felicidade.
Mas
não seriam os sonhos despertados nesses pequenos momentos
que os fazem grandes?
Drummond:
Não. Eu acho que sonho é sonho
e realidade é realidade. Às vezes a realidade parece
um sonho porque é quando você realiza "aquele
momento", o momento que o jogador faz o gol, de um ator interpretando
bem, de um escritor escrevendo bem e um homem amando uma mulher
e vice-versa. A realidade é muito melhor que a ficção.
O
escritor reúne fragmentos da realidade, reconstrói
os trechos em outra sequência e faz literatura. A vivência
dessa reconstrução através da leitura vale
como se fosse uma experiência da própria realidade,
ou é outra coisa?
Drummond:
Cumé que é?
Quando
a gente lê um livro e passa-se alguns anos, a memória
que fica é tão verdadeira quanto as memórias
das coisas vividas?
Drummond:
O Mario Vargas Llosa, que é um grande escritor peruano,
disse que sofreu mais com a morte da Madame Bovary [personagem de
Gustave Flaubert] que de muita gente. Tem livro que você lê
e que não esquece nunca. Eu te confesso que na minha experiência
eu sofri mais com as frases do que com as mulheres. (risos) Consegui
mais o sim das mulheres do que de muitas frases. Tem frases que
ainda não consegui o "sim" delas.
Nós
vivemos, então, numa espécie de limbo entre realidade
e ficção?
Drummond:
Eu acho o seguinte: por exemplo, eu estou
aqui em Uberaba e eu morei em Araxá na década de 50.
Então eu vi a região do Triângulo do avião
e começei a voltar no tempo... foi um momento feliz, meu
pai vivo, minha mãe viva, todo mundo vivo... então
eu estou aqui mas lembrando de coisas de lá; daqui a pouco
estou vendo a casa onde morava... estou vendo a minha irmã,
estou vendo uma chuva que caiu no dia-a-dia e que virou foto...
Isso é a realidade. E o Joyce, o Faulkner e a Virginia Wolf
trabalharam isso muito bem com ajuda do que o Freud estava fazendo,
que é a corrente da consciência. A gente está
aqui, mas ao mesmo tempo a gente não está aqui. O
Marcelo está ali agora com a mão sobre a mesa mas
não sei aonde ele está. Aqui, acho que não.
(risos) E isso é maravilhoso.
Minha
vida está ótima, tudo até além do que
estava planejando como escritor. Cada vez mais, porque é
no mundo e não só no Brasil. E no entanto eu gostaria
hoje, se eu pudesse fazer uma ilha da fantasia, de voltar para Araxá
naquele dia que caiu a chuva.
Quando
você queria ser Papa?
Drummond:
É, eu queria ser Papa mas ao mesmo tempo estava com um problema
muito sério. Aí que Dostoievski fala que toda vida
dá um livro. Mas nesse tempo eu brincava de médico
com uma vizinha linda não vai colocar o nome dela,
hein?! A família dela está toda em Araxá!
e eu ficava naquele conflito, e dava injeção de água
nela, era maravilhoso, arrepiante até hoje.
E quando desistiu de ser o pontífice?
Drummond:
Depois eu rompi com Deus, com a religião, e isso é
muito cômico porque eu estava devendo tanta missa às
almas, (risos) tantos terços e tantas promessas que tinha
que cumprir, pois eu era um pecador e o padre da minha terra é
aquele que está no Hilda Furacão, o Padre Nelson.
Então eu fui ficando endividado, porque como pagar cinco
terços por cada pecado mortal que eu cometia? Para o padre
Nelson qualquer coisa era pecado. Ele proibia carnaval, proibia
festas, alegria, rir proibiu a dona Nevita de rir
proibiu o decote "bolero" das meninas...
(lendo
um trecho do livro) Você ainda acha que o diabo só
faz o que Deus permite?
Drummond:
Isso tá onde?
Num
diálogo do Hilda Furacão. (pág. 136)
Drummond:
Tá no livro é? Quem tá
falando isso?
(mostrando o trecho para Drummond) É um diálogo entre
o você frei Malthus. Foi você quem disse.
Drummond:
É... é a opinião desse que está aí
no livro... (risos) que sou eu... mas não quer dizer que
seja minha... (risos gerais)
Quem
não conhece sua história pessoal e lê Hilda
Furacão sente-se confuso porque não sabe quais trechos
são reais e quais são fictícios. Era isso que
você queria?
Drummond:
Não. Eu queria que todo mundo acreditasse
em tudo, como se fosse verdade, que é o propósito
de todo escritor. O jornalista não tem isso porque ele quer
a certeza do que está contado. Eu quero a dúvida.
Eu quero a ambigüidade, aquela coisa que é e que não
é.
Legal isso. Dá um lead.
Drummond:
É, dá um lead.
Não!
Dá um título!
Drummond:
É mesmo.
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A última valsa de Roberto Furacão
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