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Matéria publicada no Revelação (jornal-laboratório do curso de Comunicação Social da Universidade de Uberaba) n. 206, em 6 de maio de 2002

andre.azevedo@uniube.br


Roberto Drummond ficou mundialmente conhecido depois de publicar o romance Hilda Furacão

Será que a realidade é apenas um alicerce para os nossos sonhos?

Drummond: O diabo é que o sonho da gente é um sonho perdido. O presidente da República, a política econômica... Meu próximo livro chama-se Os mortos não dançam valsa. É um livro existencialista, mas sobre as coisas simples que a gente não faz, sonhos e quimeras pequenininhos que a gente não faz, porque a gente não tem condições de fazer ou porque a gente depende de um punhado de coisas.

As melhores lembranças da vida são os sonhos e ilusões?

Drummond: Ah, isso não. As melhores lembranças da vida são realidade e eu trato disso no Cheiro de Deus. Só que passam rápido. É um cavalo bravo, é um beija-flor que chega à felicidade.

Mas não seriam os sonhos despertados nesses pequenos momentos que os fazem grandes?

Drummond: Não. Eu acho que sonho é sonho e realidade é realidade. Às vezes a realidade parece um sonho porque é quando você realiza "aquele momento", o momento que o jogador faz o gol, de um ator interpretando bem, de um escritor escrevendo bem e um homem amando uma mulher e vice-versa. A realidade é muito melhor que a ficção.

O escritor reúne fragmentos da realidade, reconstrói os trechos em outra sequência e faz literatura. A vivência dessa reconstrução através da leitura vale como se fosse uma experiência da própria realidade, ou é outra coisa?

Drummond: Cumé que é?

Quando a gente lê um livro e passa-se alguns anos, a memória que fica é tão verdadeira quanto as memórias das coisas vividas?

Drummond: O Mario Vargas Llosa, que é um grande escritor peruano, disse que sofreu mais com a morte da Madame Bovary [personagem de Gustave Flaubert] que de muita gente. Tem livro que você lê e que não esquece nunca. Eu te confesso que na minha experiência eu sofri mais com as frases do que com as mulheres. (risos) Consegui mais o sim das mulheres do que de muitas frases. Tem frases que ainda não consegui o "sim" delas.

Nós vivemos, então, numa espécie de limbo entre realidade e ficção?

Drummond: Eu acho o seguinte: por exemplo, eu estou aqui em Uberaba e eu morei em Araxá na década de 50. Então eu vi a região do Triângulo do avião e começei a voltar no tempo... foi um momento feliz, meu pai vivo, minha mãe viva, todo mundo vivo... então eu estou aqui mas lembrando de coisas de lá; daqui a pouco estou vendo a casa onde morava... estou vendo a minha irmã, estou vendo uma chuva que caiu no dia-a-dia e que virou foto... Isso é a realidade. E o Joyce, o Faulkner e a Virginia Wolf trabalharam isso muito bem com ajuda do que o Freud estava fazendo, que é a corrente da consciência. A gente está aqui, mas ao mesmo tempo a gente não está aqui. O Marcelo está ali agora com a mão sobre a mesa mas não sei aonde ele está. Aqui, acho que não. (risos) E isso é maravilhoso.

Minha vida está ótima, tudo até além do que estava planejando como escritor. Cada vez mais, porque é no mundo e não só no Brasil. E no entanto eu gostaria hoje, se eu pudesse fazer uma ilha da fantasia, de voltar para Araxá naquele dia que caiu a chuva.

Quando você queria ser Papa?

Drummond: É, eu queria ser Papa mas ao mesmo tempo estava com um problema muito sério. Aí que Dostoievski fala que toda vida dá um livro. Mas nesse tempo eu brincava de médico com uma vizinha linda — não vai colocar o nome dela, hein?! A família dela está toda em Araxá! — e eu ficava naquele conflito, e dava injeção de água nela, era maravilhoso, arrepiante até hoje.

E quando desistiu de ser o pontífice?

Drummond: Depois eu rompi com Deus, com a religião, e isso é muito cômico porque eu estava devendo tanta missa às almas, (risos) tantos terços e tantas promessas que tinha que cumprir, pois eu era um pecador e o padre da minha terra é aquele que está no Hilda Furacão, o Padre Nelson. Então eu fui ficando endividado, porque como pagar cinco terços por cada pecado mortal que eu cometia? Para o padre Nelson qualquer coisa era pecado. Ele proibia carnaval, proibia festas, alegria, rir — proibiu a dona Nevita de rir — proibiu o decote "bolero" das meninas...

(lendo um trecho do livro) Você ainda acha que o diabo só faz o que Deus permite?

Drummond: Isso tá onde?

Num diálogo do Hilda Furacão. (pág. 136)

Drummond: Tá no livro é? Quem tá falando isso?

(mostrando o trecho para Drummond) É um diálogo entre o você frei Malthus. Foi você quem disse.

Drummond: É... é a opinião desse que está aí no livro... (risos) que sou eu... mas não quer dizer que seja minha... (risos gerais)

Quem não conhece sua história pessoal e lê Hilda Furacão sente-se confuso porque não sabe quais trechos são reais e quais são fictícios. Era isso que você queria?

Drummond: Não. Eu queria que todo mundo acreditasse em tudo, como se fosse verdade, que é o propósito de todo escritor. O jornalista não tem isso porque ele quer a certeza do que está contado. Eu quero a dúvida. Eu quero a ambigüidade, aquela coisa que é e que não é.

Legal isso. Dá um lead.

Drummond: É, dá um lead.

Não! Dá um título!

Drummond: É mesmo.

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A última valsa de Roberto Furacão


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