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Matéria publicada no Revelação (jornal-laboratório do curso de Comunicação Social da Universidade de Uberaba) n. 197, em 4 de março de 2002

andre.azevedo@uniube.br

 


Mulheres colocam homens "no chinelo" com sedução sofisticada, e eles gostam


Ana Carolina, Sinara Guimarães, Andrea Mendes e Victor Antunes: – Eu não ‘guento’

André Azevedo da Fonseca

Rosana Arantes, aluna do curso de Serviço Social da Universidade de Uberaba, precisava "se virar" para confeccionar um panfleto de uma atividade relacionada à disciplina. Imaginou que, se havia alguém na universidade que pudesse ajudá-la, certamente estaria na área de Comunicação Social. Chegou no bloco L sem conhecer ninguém e foi orientada a procurar alguns alunos que sabem trabalhar com produção gráfica. Assim como quem não quer nada, e naquele charme "especial" que só as mulheres têm, em alguns minutos mobilizou um, dois, três, quatro, cinco marmanjos prestativos que revezavam-se para atendê-la com todas as atenções do mundo. Houve muito trabalho. Um diagramou, outro ajustou aqui e ali, outro imprimiu o layout, outro compactou e um último pelejou até tarde para descobrir como dividia o arquivo em vários disquetes. Arte final em uma mão, a outra dando tchauzinho, Rosana se foi, dizendo: "gente, obrigada por tudo", enquanto os cinco eunucos, agora sem brilhos nos olhos, provavelmente fantasiavam loucas promessas que a garota, naturalmente, não fez.

Um aluno de Biomedicina que preferiu não ser identificado, conta um caso clássico que, segundo ele, já deve ter ocorrido com muitos sujeitos. "Fim de festa, a mina chega, dá mole, pede pra levar em casa, a gente leva, e no final não rola nada", relata sucintamente. Segundo ele, os homens se sentem enganados porque a sedução da fêmea "é uma arma que elas têm e a gente não sabe se defender", diz. Perguntado se sabe lidar com os encantos femininos, Victor Antunes, aluno de Odontologia, respondeu: "Eu não guento".

Lizandra Bontempo, aluna do curso de Comunicação Social, acredita que pequenas doses de sedução podem ser usadas para conquistar alguns objetivos, desde que feito sem abusos e não causem constrangimentos. "É claro que não é legal uma pessoa passar por cima de todos só porque é muito bonita", diz. Mesmo assim, Lizandra afirmou que não costuma "jogar um agá" para, por exemplo, conseguir o atendimento mais rápido de um funcionário. Uma aluna do curso de Medicina Veterinária lembrou que, às vezes, uma necessidade muito grande pode fazer levar a mulher ao uso desses expedientes para alcançar o que precisa. "Mas isso não é uma coisa boa", conclui.

Evidentemente, o jogo da atração física não é privilégio da alma feminina. A socióloga e professora da Universidade de Uberaba, Maria de Fátima Ferreira, percebe que esses artifícios são utilizados por ambos os sexos. Ela cita Freud, dizendo que o tempo todo estamos, homens e mulheres, tentando seduzir uns aos outros. Uma aluna do curso de Biomedicina que preferiu não se identificar, insiste que os homens utilizam-se descaradamente desse recurso. "Os rapazes fazem isso com a gente também. Eles pintam e bordam. Muito homem apronta mesmo, faz até pior", desabafa. Ela confirma que o caso da carona é clássico, mas não aprova esse comportamento na mulher. "Porque algumas moças fazem, acabamos todas com fama de Maria Gasolina ", diz.


Nínive Lage: "O homem não sabe seduzir. Sabe cantar"

Mesmo assim, quase todos os entrevistados concordaram que o domínio e a sutileza no uso da sedução é mais aguçado nas mulheres. "O homem não sabe seduzir. Sabe cantar", resume Nínive Lage, funcionária da Biblioteca Central. Sinara Guinarães, aluna do curso de Odontologia, também percebe que a mulher é mais sofisticada. Segundo ela, o instinto de sedução é poderoso na alma feminina. "Além disso, o homem gosta de se submeter. Mesmo sabendo quando se trata apenas de um jogo de interesse, de uma fantasia, ele sempre espera que vai conseguir tirar proveito e se deixa levar", diz.

A socióloga Maria de Fátima Ferreira sugeriu uma idéia que pode ser um começo para se desvendar essa charada. Ela afirma que os propósitos do jogo da sedução costumam ser diferentes entre os sexos. "Para o homem, a sedução tem quase sempre o objetivo de concluir o ato sexual. A mulher muitas vezes seduz porque quer apenas proteção ou companhia", afirma. Com o instinto sexual sempre alerta, o homem estaria, portanto, constantemente à mercê. Lizandra Bontempo, quase sem querer, reforçou essa hipótese quando respondeu à uma questão reformulada. Foi perguntado: "—Você usa do encanto feminino para conquistar pequenas vantagens no dia-a-dia?" A resposta foi: "—Não". "—Você aproveita-se dessa fraqueza do homem para conseguir pequenos e inofensivos favores?" Depois de alguns segundos, sua resposta foi: "—Sim".


Rafael Ferreira: "O jeito como muitas delas se vestem acaba provocando os homens"

Priscila Dias, aluna do curso de Comunicação Social, percebe essa reciprocidade dos homens no jogo da atração. Além disso, lembra que os rapazes tendem à encarar qualquer gentileza como uma cantada. "Homem sempre acha que, quando a garota está sendo simpática, já está a fim de outras coisas. Mas na maioria das vezes não é. É uma coisa impressionante", afirma. Letícia Pinheiro, aluna do curso de Medicina Veterinária, compartilha dessa avaliação. "Às vezes a mulher só quer ser gentil, mas o sujeito entende mal", diz. Os homens se defendem. Rafael Ferreira, aluno do curso de Enfermagem, diz que as mulheres têm responsabilidade nessa confusão. "O jeito como muitas delas se vestem acaba provocando os homens. O cara acaba pensando que a menina quer muito mais do que ser apenas simpática", diz. Um aluno de um dos cursos de Licenciatura, que preferiu não ser identificado, entusiasmou-se com o tema. "Aqueles decotes, aquelas calças apertadinhas, aquelas barriguinhas de fora parecem querer dizer: venha meu macho varonil, venha fertilizar esse ventre que é só seu", recitou. "Como acreditar que é só amizade, e não namoro, sendo constantemente provocado desse jeito? Não dá pra segurar a cabeça. O instinto de perpetuação da espécie é muito forte", completa.

Mas a moça do começo da matéria que mobilizou um time completo de futebol de salão para confeccionar seu panfleto também tem a sua versão. Ela não pensa que o uso da sedução seja legítimo para outros fins que não o de uma conquista amorosa. "Esse carisma que você viu faz parte de meu temperamento, independente da pessoa ser homem ou mulher", diz. Mas Rosana, que tem namorado, sabe que esse jeitinho especial pode gerar expectativas equivocadas. "Quando o sujeito se entusiasma, sei impor limites. Pô, meu! Não é bem assim, você viajou." Além disso, ela acredita que a sedução, por si só, não consegue tudo de bandeja. "Entendo que não é por aí. Não é através do instinto sexual que se conquista as pessoas, mas sim pela simpatia pessoal, pelo comportamento bem-educado, pela postura decente, pela inteligência. É esse o charme da vida", arremata.

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