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Matéria publicada no Pergunta (jornal-laboratório do curso de Comunicação Social da Universidade de Uberaba) n. 195, em 14 de fevereiro de 2002

andre.azevedo@uniube.br

 


Arduini dá autógrafo no lançamento do livro: Antropologia - Ousar para reinventar o Ser Humano

Parece que saltamos de um regime militar meio "1984", (de George Orwell), para uma tirania sedutora de estilo "Admirável Mundo Novo", (de Aldous Huxley), que transformou a metáfora cruel do Big Brother em entretenimento. É mais ou menos isso?

Arduini:Acho que você pode fazer essa comparação sim.

Pergunta: O homem é capaz de criar a verdade através da arte. Mas o poder também tende a "produzir" sua própria verdade na intenção de preservar interesses pessoais". A arte tem condições de confrontar sua verdade com a verdade do poder?

Arduini:A arte é um valor muito grande. E esse é o ponto. Nem sempre ela é vista com simpatia pelo poder. É interessante, olhando a história do mundo, perceber que o poder não tem muita simpatia com a arte. A não ser que o artista seja vendido ou submetido. Eu acho muito triste quando um artista fica ali... perto do poder... das autoridades... Não me parece ser uma aliança muito simpática não. Porque a arte é criativa, é independente. Por que nas revoluções, e sobretudo nas ditaduras eles escurraçam com os artistas? Porque os artistas têm uma intuição da verdade, uma visão mais límpida, mais clara.

Quando vi o Madureira fazendo o trabalho dele, aquela exaltação do ser humano, fiquei pensando que certos temas não são admitidos porque aquilo vai desagradar o poder, vai provocá-lo. Então me parece que o poder não tem uma fisionomia simpática. Entre poder e arte, eu opto pela arte.

O senhor critica o idealismo como "concepção abstrata que deduz o mundo real a partir de idéias". Mas o ideal utópico também é visto como um rumo para buscar um mundo melhor. Qual a diferença entre esta noção de utopia aquela noção de idealismo?

Arduini:O idealismo fica muito no plano do pensamento. O filósofo alemão Hegel foi mestre da consciência idealista, do pensamento — que não é totalmente errado. Mas ele projeta muita força e valor na idéia. Por isso que Karl Marx fez grande crítica à ideologia idéia.

Marx não admitia o idealismo. Ele considerava a realidade no aspecto histórico, social. O idealismo é uma visão filosófica que tem também suas verdades. Mas é uma visão mais do pensamento amplo que às vezes não atinge a realidade. Um pensamento muito abstrato. Nem sempre sabe a diferença entre o que é uma idéia abstrata e um fato real concreto. O idealismo tem uma natureza própria e tende a ficar naquele plano, não o da vida, mas no plano do pensamento que circula por aí.


Ana Cristina Marchiori Tavares, da editora Paulos, e Lineu Miziara acompanharam o lançamento do livro

Agora, quando falamos em utopia, ou espírito utópico, é diferente. A utopia ainda não está concretizada. Mas tem uma diferença em relação ao idealismo, porque ela é uma situação que não está concreta mas que pode tornar-se concreta. E que até se deve lutar para fazê-la concreta. Essa é a visão utópica. É aquilo que não existe ainda mas pode e deve vir a existir. Então é muito diferente. Nós temos sonhos que podem, ou devem concretizar-se. E idealismo é uma coisa que nunca se concretiza, que até pode ter uma beleza que circula mentalmente, mas que não seja concretizado.

Então é fundamental fazer a distinção?

Arduini:Alguns identificam utopia com idealismo. Então as pessoas falam: é utopia que a humanidade toda possa ser digna, que não haja pobre. Mas eu diria que o idealismo nunca vai concretizar uma solução para essa humanidade. Se nós pensamos na sociedade, temos que lutar para que a utopia se concretize e para que essa realidade utópica, que ainda não existe, possa e deva concretizar-se. Então nós temos que lutar muito nesse ponto, e não permitir que haja uma identificação entre utopia e o idealismo, porque há uma confusão aí nos significados. Que é uma forma também de fugir à uma responsabilidade ao dizer: isso é utopia, isso não vai acontecer, nunca foi assim... Portanto, a gente tem que insistir: A utopia pode acontecer!

Faço mais uma distinção: a utopia não é só o possível. Vai mais longe. Porque só o possível pode ficar eternamente possível e nunca se concretizar. A utopia pode ser possível mas deve se transformar em realidade, deve passar do possível para a realidade.

Sua afinidade com universitários é notória. O senhor vê sabedoria nos jovens?

Arduini:Olha só, não é luxo, não é capricho, mas eu tenho uma afinidade muito grande com eles. Eu olho a humanidade como um todo, mas tem sempre uma coisa que a juventude fala diferente. Porque, sem ir longe, tem duas coisas que ela sempre me impressiona. Porque a juventude — por muito que tenha sido trabalhada — porque não viveu muito, ainda não foi massificada, plasmada pelos costumes, pelos hábitos. Pois uma pessoa de seten... eu já ia falar setenta anos... uma pessoa madura, de quarenta anos, é uma pessoa já acertada. Os jovens não foram tão massificados ainda, tão impregnados da tradição, dos hábitos, dos valores que às vezes não são valores coisa nenhuma. Então eles estão mais livres.

E por outro lado eles têm um olhar que é novo. Eles olham as coisas de modo diferente. Claro que aí já trazem um conteúdo da cultura, mas é muito frequente que eles comecem a olhar diferente.

E por isso que agora volto — e você não viveu na época, felizmente — quando ocorreu o golpe militar, por exemplo. O que aconteceu? O governo foi em cima dos trabalhadores que faziam greve, e dos estudantes. O escritor Alceu Amoroso Lima, que já esteve em Uberaba com a gente mais de uma vez, disse que o golpe militar trouxe duplo silêncio: silenciou os trabalhadores e silenciou os estudantes.

A juventude de hoje está mais alienada do que a geração anterior?

Arduini:Tenho uma confiança muito grande na juventude, a ao mesmo tempo sabemos que jovens de hoje também sofrem muitas pressões. Agora, por exemplo, nesse desemprego, o jovem pode ter feito um bom curso para ter uma profissão, mas chega na hora de trabalhar é aquele massacre. Isso força muito a personalidade daquele jovem que precisa trabalhar e tem que se "adaptar" ao sistema. Então eu acho isso muito triste.

A juventude tem critérios diferentes. Eu vejo nas missas. A gente ouve e percebe a sabedoria, a sensatez verda-deira que falam. Às vezes as pessoas dizem: mas não erram? Ora, todos erram. Padre erra também. Errar, nós todos erramos. Mas não porque é jovem; erra porque é humano.

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