
Arduini dá
autógrafo no lançamento do livro: Antropologia
- Ousar para reinventar o Ser Humano |
Parece
que saltamos de um regime militar meio "1984", (de George
Orwell), para uma tirania sedutora de estilo "Admirável
Mundo Novo", (de Aldous Huxley), que transformou a metáfora
cruel do Big Brother em entretenimento. É mais ou menos isso?
Arduini:Acho
que você pode fazer essa comparação sim.
Pergunta:
O homem é capaz de criar a verdade através da arte.
Mas o poder também tende a "produzir" sua própria
verdade na intenção de preservar interesses pessoais".
A arte tem condições de confrontar sua verdade com
a verdade do poder?
Arduini:A
arte é um valor muito grande. E esse é o ponto. Nem
sempre ela é vista com simpatia pelo poder. É interessante,
olhando a história do mundo, perceber que o poder não
tem muita simpatia com a arte. A não ser que o artista seja
vendido ou submetido. Eu acho muito triste quando um artista fica
ali... perto do poder... das autoridades... Não me parece
ser uma aliança muito simpática não. Porque
a arte é criativa, é independente. Por que nas revoluções,
e sobretudo nas ditaduras eles escurraçam com os artistas?
Porque os artistas têm uma intuição da verdade,
uma visão mais límpida, mais clara.
Quando
vi o Madureira fazendo o trabalho dele, aquela exaltação
do ser humano, fiquei pensando que certos temas não são
admitidos porque aquilo vai desagradar o poder, vai provocá-lo.
Então me parece que o poder não tem uma fisionomia
simpática. Entre poder e arte, eu opto pela arte.
O
senhor critica o idealismo como "concepção abstrata
que deduz o mundo real a partir de idéias". Mas o ideal
utópico também é visto como um rumo para buscar
um mundo melhor. Qual a diferença entre esta noção
de utopia aquela noção de idealismo?
Arduini:O
idealismo fica muito no plano do pensamento. O filósofo alemão
Hegel foi mestre da consciência idealista, do pensamento
que não é totalmente errado. Mas ele projeta muita
força e valor na idéia. Por isso que Karl Marx
fez grande crítica à ideologia idéia.
Marx
não admitia o idealismo. Ele considerava a realidade no aspecto
histórico, social. O idealismo é uma visão
filosófica que tem também suas verdades. Mas é
uma visão mais do pensamento amplo que às vezes não
atinge a realidade. Um pensamento muito abstrato. Nem sempre sabe
a diferença entre o que é uma idéia abstrata
e um fato real concreto. O idealismo tem uma natureza própria
e tende a ficar naquele plano, não o da vida, mas no plano
do pensamento que circula por aí.

Ana
Cristina Marchiori Tavares, da editora Paulos, e Lineu Miziara
acompanharam o lançamento do livro
|
Agora,
quando falamos em utopia, ou espírito utópico, é
diferente. A utopia ainda não está concretizada. Mas
tem uma diferença em relação ao idealismo,
porque ela é uma situação que não está
concreta mas que pode tornar-se concreta. E que até se deve
lutar para fazê-la concreta. Essa é a visão
utópica. É aquilo que não existe ainda mas
pode e deve vir a existir. Então é muito diferente.
Nós temos sonhos que podem, ou devem concretizar-se. E idealismo
é uma coisa que nunca se concretiza, que até pode
ter uma beleza que circula mentalmente, mas que não seja
concretizado.
Então
é fundamental fazer a distinção?
Arduini:Alguns
identificam utopia com idealismo. Então as pessoas falam:
é utopia que a humanidade toda possa ser digna, que não
haja pobre. Mas eu diria que o idealismo nunca vai concretizar
uma solução para essa humanidade. Se nós pensamos
na sociedade, temos que lutar para que a utopia se concretize e
para que essa realidade utópica, que ainda não existe,
possa e deva concretizar-se. Então nós temos que lutar
muito nesse ponto, e não permitir que haja uma identificação
entre utopia e o idealismo, porque há uma confusão
aí nos significados. Que é uma forma também
de fugir à uma responsabilidade ao dizer: isso é
utopia, isso não vai acontecer, nunca foi assim... Portanto,
a gente tem que insistir: A utopia pode acontecer!
Faço
mais uma distinção: a utopia não é só
o possível. Vai mais longe. Porque só o possível
pode ficar eternamente possível e nunca se concretizar. A
utopia pode ser possível mas deve se transformar em
realidade, deve passar do possível para a realidade.
Sua
afinidade com universitários é notória. O senhor
vê sabedoria nos jovens?
Arduini:Olha
só, não é luxo, não é capricho,
mas eu tenho uma afinidade muito grande com eles. Eu olho a humanidade
como um todo, mas tem sempre uma coisa que a juventude fala diferente.
Porque, sem ir longe, tem duas coisas que ela sempre me impressiona.
Porque a juventude por muito que tenha sido trabalhada
porque não viveu muito, ainda não foi massificada,
plasmada pelos costumes, pelos hábitos. Pois uma pessoa de
seten... eu já ia falar setenta anos... uma pessoa madura,
de quarenta anos, é uma pessoa já acertada. Os jovens
não foram tão massificados ainda, tão impregnados
da tradição, dos hábitos, dos valores que às
vezes não são valores coisa nenhuma. Então
eles estão mais livres.
E
por outro lado eles têm um olhar que é novo. Eles olham
as coisas de modo diferente. Claro que aí já trazem
um conteúdo da cultura, mas é muito frequente que
eles comecem a olhar diferente.
E
por isso que agora volto e você não viveu na
época, felizmente quando ocorreu o golpe militar,
por exemplo. O que aconteceu? O governo foi em cima dos trabalhadores
que faziam greve, e dos estudantes. O escritor Alceu Amoroso Lima,
que já esteve em Uberaba com a gente mais de uma vez, disse
que o golpe militar trouxe duplo silêncio: silenciou os trabalhadores
e silenciou os estudantes.
A
juventude de hoje está mais alienada do que a geração
anterior?
Arduini:Tenho
uma confiança muito grande na juventude, a ao mesmo tempo
sabemos que jovens de hoje também sofrem muitas pressões.
Agora, por exemplo, nesse desemprego, o jovem pode ter feito um
bom curso para ter uma profissão, mas chega na hora de trabalhar
é aquele massacre. Isso força muito a personalidade
daquele jovem que precisa trabalhar e tem que se "adaptar"
ao sistema. Então eu acho isso muito triste.
A
juventude tem critérios diferentes. Eu vejo nas missas. A
gente ouve e percebe a sabedoria, a sensatez verda-deira que falam.
Às vezes as pessoas dizem: mas não erram? Ora,
todos erram. Padre erra também. Errar, nós todos erramos.
Mas não porque é jovem; erra porque é humano.
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permanente
Universitários devem ser sempre ousados
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