|
Em visita a Uberaba,
Drummond concedeu uma de suas últimas entrevistas
|
André
Azevedo da
Fonseca

|
André Azevedo da Fonseca
O escritor Roberto
Drummond, morto devido a um ataque cardíaco na madrugada
de 21 de junho, esteve em Uberaba no dia 3 de maio. Participava
do projeto Grandes Escritores, promovido pela empresa Tim e pelo
jornal Estado de Minas, em parceria com os programas Pró-Ler
e ArtEducação. Em entrevista exclusiva ao Revelação,
jornal-laboratório do Curso de Comunicação
Social da Universidade de Uberaba talvez a última
de sua vida falou de jornalismo e das semelhanças
entre ficção e realidade, tema sempre explorado em
sua obra literária. (Clique
aqui para ler a entrevista)
Drummond também
refletiu sobre o imaginário popular, lembrando que todas
as manifestações folclóricas e religiosas são
tão verdadeiras quanto qualquer impressão pragmática
que tenhamos da realidade. Disse também que há muita
gente que se sensibiliza mais com personagens de ficção
do que com pessoas reais. O escritor confessou que ele próprio
foi vítima da síndrome: "Consegui mais o sim das mulheres
do que de muitas frases", disse.
No bate-papo
com os leitores, realizado no auditório da Faculdade de Medicina
do Triângulo Mineiro (FMTM), Drummond foi, mais uma vez, cobrado
sobre sua relação com Hilda Furacão. Bem-humorado,
lembrou que, em certa ocasião, acabou vaiado quando declarou
não ter transado com Hilda. O escritor tinha um prazer especial
nessa ambigüidade criada em torno da existência da personagem.
"Sei de pelos menos oito ou nove mulheres que têm certeza
que Hilda foi inspirada nelas", deliciava-se.
Humor com
Rolla
Entretanto,
a discussão sobre um outro livro dele chamou a atenção.
Sua primeira obra, A morte de D. J. em Paris, foi considerada
um marco do pós-modernismo na literatura brasileira. Repleto
de referências a ícones da cultura pop, a narrativa
desconexa e sempre inconclusa convida o leitor a participar do texto
de múltiplas possibilidades de interpretação.
Drummond lembrou que, numa entrevista, sua visão sobre Dôia
uma das personagens foi derrotada por outras explicações.
O escritor contou um caso que se tornou folclórico: quando
descobriu que seu livro seria fonte para perguntas de vestibular,
decidiu fazer a prova. Tirou zero. Um sujeito que tirou boa nota
duvidou que ele fosse o escritor. "Se você escreveu, então
não leu", disse a Drummond.
O escritor lembrou
também que a morte sempre esteve presente em suas obras,
sobretudo nos títulos: A morte de D.J. em Paris, O
dia que Ernest Hemingway morreu crucificado, Quando fui morto
em Cuba, Inês é morta, O homem que subornou
a morte. Na entrevista, contou que seu próximo romance
seria Os mortos não dançam valsa. Segundo Drummond,
este livro seria uma reflexão existencialista sobre as pequenas
coisas que relegamos para depois, que deixamos de fazer na vida,
até que a morte chega e esses sonhos morrem junto. Para a
frustração de seus leitores, Drummond morreu sem concluir
esse último pequeno sonho, sem dançar sua última
valsa.
Roberto Drummond
contou histórias de quando era um jovem repórter na
ainda inocente Belo Horizonte, nos anos que antecederam o golpe
de 64. Trabalhou em diversas redações, mas guardava
um carinho especial pelo período em que integrou a equipe
de um tablóide ousado e irreverente, cujo lema era "99% de
independência e 1% de ligações suspeitas": o
Binômio, fundado pelos jornalistas José Maria
Rabelo e Luiz Arantes.
O nome desse
jornal era uma gozação ao programa administrativo
do então governador de Minas, Juscelino Kubitschek. O deboche
aos políticos era total. Numa edição especial
do aniversário de BH, governada por um prefeito que só
tinha um olho, o Binômio disparou a manchete: "Um administrador
de visão única". Outra manchete rendeu uma acusação
de atentado ao pudor: "Juscelino vai pôr Rolla na Praça
Raul Soares". A notícia referia-se ao empresário Joaquim
Rolla, que construiria, na praça, um conjunto habitacional,
hoje conhecido como JK. Esse empresário seria vítima
de outras manchetes atrevidas, como "Juscelino foi a Araxá
e levou Rolla". Rolla caíra como uma luva nas mãos
dos jovens e anárquicos jornalistas para "complementar" a
fama de Juscelino, tido como galante e conquistador. O jornal definitivamente
escandalizava a Tradicional Família Mineira (TFM), instituição
que dominava a capital interiorana e moralista da época.
|
reprodução
(foto de Lila Alves - Lince)

Jornal debochava dos políticos e escandalizava
a Tradicional Família Mineira (TFM)
|
Pasquim,
o sucessor
Mas o Binômio
também era combativo. Uma reportagem de Roberto Drummond
e Antonio Cocenza, publicada no Binômio, rendeu ao
jornal vários prêmios em 1950. A dupla foi investigar
uma denúncia sobre tráfico de retirantes nordestinos
que estariam sendo vendidos como escravos. Drummond e Cocenza passaram-se
por filhos de fazendeiros e percorreram a rota desse comércio.
Conseguiram abordar o "gerente" do pau-de-arara, compraram um casal
Manoel e Francisca por 4 mil cruzeiros (cerca de 200
dólares) e ainda trouxeram recibo. Tudo registrado e fotografado.
A matéria alcançou repercussão internacional.
Foi notícia nas revistas Time e Paris Match
e no jornal Le Monde. O casal libertado deu depoimento na
Câmara dos Deputados e no Senado. Essa história está
relatada em Hilda Furacão.
Em 1961, um
episódio marcou a história desse tablóide atrevido.
O jornal publicou reportagem revelando a simpatia do general-de-brigada
João Punaro Bley pelo fascismo. Mostrou que, no Espírito
Santo, fora interventor federal durante a ditadura do Estado Novo
e chegara a organizar sua própria Gestapo para caçar
comunistas. A manchete foi "Quem é Funaro Bley democrata
hoje, fascista ontem". O general foi à redação
e agarrou Rabelo pelo pescoço. Rabelo deu-lhe um soco daqueles
de deixar olho roxo. Duas horas depois, 200 homens cercaram o quarteirão
e destruíram o jornal. Mesmo assim, impresso no Rio de Janeiro,
o Binômio funcionou até 29 de março de
1964. Não havia condições de continuar depois
do golpe militar. Rabelo exilou-se na Bolívia e só
voltou ao Brasil na anistia de 1979.
Ziraldo chegou
a declarar que "o Binômio virou uma febre, só
repetida, alguns anos depois, nas areias de Ipanema, com seu irmão
carioca, o Pasquim" Foi Roberto Drummond, na época
do Binômio, por exemplo, que "descobriu" o cartunista
Henfil. Entretanto, certamente por não se localizar no eixo
Rio-São Paulo, a importância do Binômio
é sempre "esquecida" na história da imprensa alternativa.
pág. 1 de 1
Leia também:
Eu quero a ambiguidade
Entrevista com Roberto Drummond
| página
principal |
|
 |
|
|