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Introdução de Cotidianos culturais e outras histórias

Caríssimo leitor,

Cotidianos culturais e outras histórias é uma seleção de reportagens, crônicas, artigos e entrevistas que publiquei entre 2002 e 2003 no Revelação, o jornal-laboratório do curso de Comunicação Social da Universidade de Uberaba (Uniube), na revista NovaE e no Observatório da Imprensa*. Na verdade, confesso que morri de vontade de incluir todos os textos que escrevi nesse período, porque tudo que fiz foi com a maior paixão, e a gente não descarta nossas paixões assim, sem mais nem menos. Mas preferi poupar os leitores, economizar páginas e cortar na carne. Ficou só o filé!

Meus critérios foram os seguintes: para começar, incluí textos que conquistaram prêmios universitários nacionais. Fica mais fácil assim. É uma boa forma de avaliar o próprio trabalho sem precisar de constrangedores auto-elogios. Em seguida, excluí as matérias que se restringiram a noticiar fatos, ou seja, que ficaram circunscritas ao instante de seu contexto. Deixei de lado também os artigos acadêmicos e as análises mais carrancudas, pois pareciam destoar da atmosfera aconchegante do livro. Dessa forma, privilegiei os textos que falam de cotidianos culturais, registram momentos preciosos da memória afetiva da cidade e, enfim, contam boas histórias. Além disso, é claro, fiz questão de selecionar trabalhos inquietos, debochados, feitos especialmente para desmascarar estratégias de poder e contribuir na necessária crítica de nossa cultura brasileira.

Quase sem querer, nas encruzilhadas das esquinas de vírgulas, os textos vizinhos se auto-organizaram em condomínios coloridos, quarteirões entrecruzados e bairros labirínticos rascunhados em um mapa imaginário. Surgiu assim, através de uma displicência de critério absolutamente pessoal, uma cidade nova, descoberta por um estrangeiro em sua própria terra natal, por um conterrâneo encantado por enxergar verdadeiros tesouros da superfície de seu cotidiano, por um estudante boquiaberto perante a cultura esfuziante das pessoas que se esbarram e se esfregam na orquestra de sonhos, vozes, motores e buzinas nas ruas.

Todos os textos foram novamente revisados, e muitos trechos foram praticamente reescritos. Mas me segurei para não reescrever tudo, ou provavelmente ficaria fazendo isso pelo resto da vida. Procurei consertar informações desatualizadas, consultei fitas e anotações para confirmar detalhes, acrescentei parágrafos que havia descartado devido as restrições de tamanho no jornal, adaptei uma coisa ou outra para o clima de perenidade de um livro e pronto!

As que mais me angustiaram foram as reportagens sobre edificações do patrimônio cultural de Uberaba, minha cidade natal, pois desde aquela época casas foram derrubadas, contextos ficaram diferentes, mas sobretudo porque aprendi muito sobre o tema nos últimos dois anos. Mesmo assim, preferi deixar mais ou menos como foram originalmente publicadas. Minha idéia é dedicar um livro inteiro só pra isso, com abordagens aprofundadas, pesquisas minunciosas e tudo mais. Publiquei muitas coisas nesses primeiros meses de 2004, mas também tenho outros planos para esses textos. Mas de qualquer maneira, este livro estava pronto desde fevereiro deste ano.

Acredito que o jornalismo cultural tem um papel fundamental na sociedade. Você já se flagrou lamentando-se que no cotidiano local não acontece nada de importante, que a história da cidade é uma bobagem desprezível e que só os outros — sobretudo estrangeiros — têm uma vida interessante e plena de sentido? Já se viu constrangido ou envergonhado depois de manifestar o seu carinho por vivências corriqueiras de seu próprio coridiano? Já se sentiu socialmente pressionado a menosprezar em público a própria cultura? Esses são sintomas evidentes de uma doença relacionada a um estratégico discurso de ridicularização de nossa identidade cultural, promovido por diversos agentes interessados em valorizar e vender seus próprios símbolos culturais. Essas operações sistemáticas de deterioração de nossa auto-estima nos levam a crer que somos uns idiotas e que a produção histórica e cultural de nossa comunidade é mesmo insignificante e vergonhosa — como se fosse possível que 260 mil pessoas convivendo juntas, como é o caso de Uberaba e dezenas de outras cidades do interior do Brasil, não produzissem história e cultura.

Percebe-se portanto o importante trabalho que o jornalismo cultural deve assumir. E um dos mais essenciais é justamente contribuir na interpretação dos símbolos, na produção de sentido e na incessante reinvenção da identidade nas cidades. Mas para isso precisamos de novas leituras do cotidiano. Precisamos, como ensinava Paulo Freire, aprender a ler o mundo, o país, as ruas, as pessoas. E não apenas através de uma perspectiva analítica e racional, mas por meio de olhares afetivos, carinhosos e amorosos, capazes de, entre piscadelas cúmplices, tecer um texto vivo e caloroso que não tem medo de se emaranhar nas teias dos contatos humanos.

Espero que você, leitor, se delicie na leitura do livro com o mesmo prazer que eu tive ao escrevê-lo.

Afetuosos abraços,

André Azevedo da Fonseca

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Ficha Técnica:
ISBN
85-88920-28-X
Edição 1 / 2004
192 pág.    14.0 x 21.0 cm
R$19,50

À venda nas livrarias de Uberaba

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