# Informações gerais


Matéria publicada no Revelação (jornal-laboratório do curso de Comunicação Social da Universidade de Uberaba) n. 214, em 29 de julho de 2002

Vencedor da categoria Crônica na Mostra Competitiva do 15. Set Universitário, realizado pela Famecos/PUC-RS, em Porto Alegre, 2002

andre.azevedo@uniube.br

 


Confira exemplos de gírias e expressões comuns no vocabulário da cidade


Giovanni Vekariel, Marco Gosuke e Lungas Neto: "Foto de língua de fora? Vapo!"

André Azevedo da Fonseca

O idioma falado em Uberaba é um misto entre português e dialetos paulistas, goianos, mineiros, baianos e candangos. O turista que precisa iniciar um primeiro contato deve ficar atento às expressões peculiares desta salada linguística, ou corre o risco de não entender nada! Uberabenses nativos, habituados ao curioso linguajar, normalmente não percebem as inusitadas e interessantíssimas combinações que fazem com as palavras. Conheça algumas dessas curiosas expressões bastante populares usadas por estudantes e habitantes desta cidade "atípica".

De jeito maneira
Mais que "de jeito nenhum!", ou "de maneira nenhuma!", há o superlativo "de jeito maneira!". Nessa expressão está embutida uma negativa irreversível. "De jeito maneira!" é pior do que nunca, jamais; é uma hipótese fora de qualquer rascunho de possibilidade; nem em delírios, nem em sonhos é admissível o que foi condenado ao "de jeito maneira!". É uma negativa do estilo "necas de pitibiriba".

Exemplo:

— Vem cá chuchuzinho, você é uma gatinha. Me dá um beijo!

— De jeito maneira!

* A expressão equivale à "Nem que a vaca tussa!". Como qualquer uberabense sabe, apesar de existir muitos fenômenos inexplicáveis neste mundo, é muito raro a ocorrência de tosses em vacas. Não podemos dizer que a vaca não tosse de jeito maneira, (nunca se sabe), mas que é difícil, isso é. Não se conhecem muitas pessoas que afirmem terem visto uma vaca tossir. Negar uma decisão mesmo que a vaca tussa é negar pra valer! Quando se deseja reforçar ainda mais a negativa, é possível dizer "Nem que a vaca tussa e o boi espirre!".

* Outra expressão equivalente é "Você está é besta!", normalmente expressa da maneira condesada "Cê tá é besta!", ou da forma ultra-reduzida "Cê besta!".

Exemplo

— Vamos chuchuzinho, só um beijinho!

— "Cê besta!"

Êia
Essa expressão é usada como ordem para mandar um cavalo parar. Aparentemente, nossos eqüinos compreendem o termo, pois quando um carroceiro impetuoso ordena "êia!", o bicho, quando manso, costuma parar mesmo. Mas o "êia!" também foi transposto para as relações sociais, mais ou menos com o mesmo sentido, porém funciona em um contexto metalinguístico — ou seja, é uma expressão que visa levar a atenção ao código. O "êia!", nessa transposição, é como uma ordem para que o outro interrompa o discurso porque o interlocutor precisa "parar para pensar".

Exemplo:

— A contextualização da conjuntura envolve premissas relativamente ambíguas.

— Êia!

O "êia!" também serve para mandar parar, quando os instintos animais levam um macho entusiasmado ao descontrole.

— Vamos benzinho, tire só a blusa!

— Êia!

* A expressão também tem variantes, como "êita", ou "aueiôôu…", e podem vir junto à expressão "peraê", que signinifca "espere aí", ficando assim: Êita, peraê!)

* Pode também ser usada na função fática — ou seja, não diz nada, é apenas um estímulo para iniciar uma comunicação. "Êia!"

Sei lá
O interlocutor sabe, mas lá. Aonde? Não se sabe. Em algum lugar indefinido, indeterminado, longínquo, inalcançável, sei lá! É até possível que alguém saiba, mas não ele, pelo menos no momento. Provavelmente nem quer saber, e desdenha a informação ao dizer que ela está muito distante de suas preocupações: lá, em um lugar qualquer que não o interessa, assim como não faz diferença em sua vida os problemas do Nepal, Azerbaijão ou Bulgária, tão longe que parecem ficção, alhures, algures, em alguma parte... sei lá!

Exemplo:

— Sabe o nome completo de Dom Pedro I?

- Sei lá!

*A expressão "Vai saber..." é equivalente.

Aí eu peguei e falei

Essa expressão é uma tentativa de materialização do verbo, busca a tangibilidade do conceito. Indivíduos que têm dificuldade no trato com símbolos abstratos — como a palavra —, tentam concretizá-las para pegá-las com as mãos e, aí sim, ter certa segurança sobre o assunto em questão. A abstração verbal parece insuficiente, o sujeito não é capaz de provar a veracidade da informação através de argumentação lógica, imaterial. Em vista disso, transforma a idéia em objeto — única maneira encontrada para dar consistência à elaboração intelectual.

Exemplo:

— Aí ele me falou que não ia me dar um presente. Aí eu peguei e falei, então tá, eu não queria mesmo!

Virgem Maria e Nossa Senhora!
Desde a pregação dos jesuítas, somos um povo que adquiriu muito do linguajar católico. Quando ocorre um infortúnio qualquer, é quase instintivo apelarmos para santos, anjos, o próprio Deus etc. Uma das santas mais requisitadas é Maria, mãe do Homem, considerada virgem. Daí o apelo à "Virgem Maria!". Essa invocação é feita há séculos, mas foi se desconstruindo com as corruptelas naturais da língua, até chegar ao ponto em que chegou. Se um sujeito perde um ônibus e diz xíííí, ou ííííííí…, na verdade está clamando por Virgem Maria. Acompanhe as sucessivas desconstruções que levaram à versão mínima da expressão da Santa:

"Virgem Maria!" - "Virgem!" - "Virgi!" - "Vígi!" - "Víxi!" - "Íxi!" - "Xi!" - "ííííí…" - "chhhh…" (Este último trata-se de um ruído bucal, imitando um sal de fruta fervendo num copo d’água")

Exemplos:

- Ai ai ai, meu marido está chegando!

- Íííííííí...

— Acho que esqueci sua cueca na sala!

— Xiiiii...

Construções mistas também são usuais, como "Vixi Maria" ou "Íxi Maria". Curiosamente, não se usa "Íiii Maria", mas é normal o "Íííí Jesus", ou "Íiiii meu Deus do céu". Trata-se de dupla proteção.

(Também são encontradas interjeições com funções análogas, mas que foram tão modificadas que é difícil identificar sua procedência. Ex: "Vapo!" - "Vúti!" - "Vasco!" A expressão "Vaaapo!", assim com a "Hêêêênfo", podem ter origem em palavrões populares.)

Da mesma forma, a invocação a "Nossa Senhora!" sofreu suas corruptelas. Acompanhe. "Nossa Senhora" - "Nossa" - "Nó!" - "Nú!"

Exemplos:

— Você viu? Ele foi pular a cerca e quebrou o braço!

— Nóóó!

— E aí o boi deu uma chifrada nas costas dele!

— Nú!

(Aqui também encontram-se expressões com o sentido similar. Ex: "Nusga" - "Nííí")

Saudações
Há um variadíssimo cardápio de expressões que, curiosamente, podem ser utilizadas como saudações em qualquer contexto social. Contentemo-nos com a descrição de alguns.

Saudações que indicam agradável surpresa:

"Êpa!" - "Ôpa!" - "Ôua" - "Ôp!" - "Ó o cara aí!" - "Ó o cara!" - "Úa!" - "Iôôôu"

Saudações que indicam cordial preocupação com o bem-estar alheio:

"Bão?" - "Certim?" - "Beleza?" - "Belê?" - "Firme?" - "Firme e forte?" - "Chique?" - "Chique no úrtimo?" - "Que cê conta?" - "Que tá pegando?"

Saudações que indicam satisfação

por ver o amigo tranqüilo:

"Só de boa?" - "Ê beleza, hein? " - "Só na maciota? "

Saudações de duplo sentido:

"Pega na minha!" "Segura e balança!"

*Evidentemente, a maior parte deles não quer dizer nada — cumpre também a função fática da linguagem.

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