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Confira
exemplos de gírias e expressões comuns
no vocabulário da cidade

Giovanni Vekariel,
Marco Gosuke e Lungas Neto: "Foto de língua de fora?
Vapo!"
André
Azevedo da Fonseca
O idioma falado
em Uberaba é um misto entre português e dialetos paulistas,
goianos, mineiros, baianos e candangos. O turista que precisa iniciar
um primeiro contato deve ficar atento às expressões
peculiares desta salada linguística, ou corre o risco de
não entender nada! Uberabenses nativos, habituados ao curioso
linguajar, normalmente não percebem as inusitadas e interessantíssimas
combinações que fazem com as palavras. Conheça
algumas dessas curiosas expressões bastante populares usadas
por estudantes e habitantes desta cidade "atípica".
Mais que "de
jeito nenhum!", ou "de maneira nenhuma!", há
o superlativo "de jeito maneira!". Nessa expressão
está embutida uma negativa irreversível. "De jeito
maneira!" é pior do que nunca, jamais; é uma hipótese
fora de qualquer rascunho de possibilidade; nem em delírios,
nem em sonhos é admissível o que foi condenado ao "de
jeito maneira!". É uma negativa do estilo "necas
de pitibiriba".
Exemplo:
Vem cá
chuchuzinho, você é uma gatinha. Me dá um beijo!
De jeito
maneira!
* A expressão
equivale à "Nem
que a vaca tussa!". Como qualquer uberabense
sabe, apesar de existir muitos fenômenos inexplicáveis
neste mundo, é muito raro a ocorrência de tosses em
vacas. Não podemos dizer que a vaca não tosse de
jeito maneira, (nunca se sabe), mas que é difícil,
isso é. Não se conhecem muitas pessoas que afirmem
terem visto uma vaca tossir. Negar uma decisão mesmo que
a vaca tussa é negar pra valer! Quando se deseja reforçar
ainda mais a negativa, é possível dizer "Nem
que a vaca tussa e o boi espirre!".
* Outra expressão
equivalente é "Você
está é besta!", normalmente
expressa da maneira condesada "Cê
tá é besta!", ou da forma
ultra-reduzida "Cê besta!".
Exemplo
Vamos
chuchuzinho, só um beijinho!
"Cê
besta!"
Essa expressão
é usada como ordem para mandar um cavalo parar. Aparentemente,
nossos eqüinos compreendem o termo, pois quando um carroceiro
impetuoso ordena "êia!", o bicho, quando manso, costuma
parar mesmo. Mas o "êia!" também foi transposto
para as relações sociais, mais ou menos com o mesmo
sentido, porém funciona em um contexto metalinguístico
ou seja, é uma expressão que visa levar a atenção
ao código. O "êia!", nessa transposição,
é como uma ordem para que o outro interrompa o discurso porque
o interlocutor precisa "parar para pensar".
Exemplo:
A contextualização
da conjuntura envolve premissas relativamente ambíguas.
Êia!
O "êia!"
também serve para mandar parar, quando os instintos
animais levam um macho entusiasmado ao descontrole.
Vamos
benzinho, tire só a blusa!
Êia!
* A expressão
também tem variantes, como "êita",
ou "aueiôôu
",
e podem vir junto à expressão "peraê",
que signinifca "espere aí", ficando assim: Êita,
peraê!)
* Pode
também ser usada na função fática
ou seja, não diz nada, é apenas um estímulo
para iniciar uma comunicação. "Êia!"
O interlocutor
sabe, mas lá. Aonde? Não se sabe. Em algum lugar indefinido,
indeterminado, longínquo, inalcançável, sei lá!
É até possível que alguém saiba, mas não
ele, pelo menos no momento. Provavelmente nem quer saber, e desdenha
a informação ao dizer que ela está muito distante
de suas preocupações: lá, em um lugar qualquer
que não o interessa, assim como não faz diferença
em sua vida os problemas do Nepal, Azerbaijão ou Bulgária,
tão longe que parecem ficção, alhures, algures,
em alguma parte... sei lá!
Exemplo:
Sabe
o nome completo de Dom Pedro I?
- Sei lá!
*A expressão
"Vai saber..." é equivalente.
Aí
eu peguei e falei
Essa expressão
é uma tentativa de materialização do verbo,
busca a tangibilidade do conceito. Indivíduos que têm
dificuldade no trato com símbolos abstratos como a
palavra , tentam concretizá-las para pegá-las
com as mãos e, aí sim, ter certa segurança
sobre o assunto em questão. A abstração verbal
parece insuficiente, o sujeito não é capaz de provar
a veracidade da informação através de argumentação
lógica, imaterial. Em vista disso, transforma a idéia
em objeto única maneira encontrada para dar
consistência à elaboração intelectual.
Exemplo:
Aí
ele me falou que não ia me dar um presente. Aí
eu peguei e falei, então tá, eu não queria
mesmo!
| Virgem
Maria e Nossa Senhora! |
Desde a pregação
dos jesuítas, somos um povo que adquiriu muito do linguajar
católico. Quando ocorre um infortúnio qualquer, é
quase instintivo apelarmos para santos, anjos, o próprio Deus
etc. Uma das santas mais requisitadas é Maria, mãe do
Homem, considerada virgem. Daí o apelo à "Virgem
Maria!". Essa invocação
é feita há séculos, mas foi se desconstruindo
com as corruptelas naturais da língua, até chegar ao
ponto em que chegou. Se um sujeito perde um ônibus e diz xíííí,
ou ííííííí
,
na verdade está clamando por Virgem Maria. Acompanhe as sucessivas
desconstruções que levaram à versão mínima
da expressão da Santa:
"Virgem
Maria!" - "Virgem!" - "Virgi!" - "Vígi!"
- "Víxi!" - "Íxi!" - "Xi!"
- "ííííí
" - "chhhh
"
(Este último trata-se de um ruído
bucal, imitando um sal de fruta fervendo num copo dágua")
Exemplos:
- Ai ai ai,
meu marido está chegando!
- Íííííííí...
Acho
que esqueci sua cueca na sala!
Xiiiii...
Construções
mistas também são usuais, como "Vixi
Maria" ou "Íxi
Maria". Curiosamente, não se
usa "Íiii Maria",
mas é normal o "Íííí
Jesus", ou "Íiiii
meu Deus do céu". Trata-se de
dupla proteção.
(Também
são encontradas interjeições com funções
análogas, mas que foram tão modificadas que é
difícil identificar sua procedência. Ex: "Vapo!"
- "Vúti!" - "Vasco!"
A expressão "Vaaapo!", assim
com a "Hêêêênfo",
podem ter origem em palavrões populares.)
Da mesma forma,
a invocação a "Nossa
Senhora!" sofreu suas corruptelas.
Acompanhe. "Nossa Senhora" - "Nossa"
- "Nó!" - "Nú!"
Exemplos:
Você
viu? Ele foi pular a cerca e quebrou o braço!
Nóóó!
E aí
o boi deu uma chifrada nas costas dele!
Nú!
(Aqui também
encontram-se expressões com o sentido similar. Ex: "Nusga"
- "Nííí")
Há um variadíssimo
cardápio de expressões que, curiosamente, podem ser
utilizadas como saudações em qualquer contexto social.
Contentemo-nos com a descrição de alguns.
Saudações
que indicam agradável surpresa:
"Êpa!"
- "Ôpa!" - "Ôua" - "Ôp!"
- "Ó o cara aí!" - "Ó o cara!"
- "Úa!" - "Iôôôu"
Saudações
que indicam cordial preocupação com o bem-estar alheio:
"Bão?"
- "Certim?" - "Beleza?" - "Belê?"
- "Firme?" - "Firme e forte?" - "Chique?"
- "Chique no úrtimo?" - "Que cê
conta?" - "Que tá pegando?"
Saudações
que indicam satisfação
por ver o
amigo tranqüilo:
"Só
de boa?" - "Ê beleza, hein? " - "Só
na maciota? "
Saudações
de duplo sentido:
"Pega
na minha!" "Segura e balança!"
*Evidentemente,
a maior parte deles não quer dizer nada cumpre também
a função fática da linguagem.
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