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Sonia Lopes

Tânia
Cristina Ulhoa, Guido Bilharinho e André Azevedo da Fonseca
"sabatinaram" Affonso Romano de Sant'Anna no projeto
Tim Estado de Minas - Grandes escritores, realizado em Uberaba
na noite de 26 de abril de 2004 |
Patrick
Grainville, em entrevista a Betty Milan, diz que é muito
importante que o escritor tenha um ofício qualquer fora da
literatura, porque senão ele fica maluco, fica muito distante
do mundo e se perde. O que você acha disso?
Isso
é um problema dele.
Rá
rá rá. Perguntei isso consciente desse contexto em
que vivemos, no qual o escritor, com as raras exceções,
não consegue viver de sua obra. Então
Eu
adoraria ficar só escrevendo poesia, se me financiassem por
aí. Adoraria enlouquecer escrevendo poesia. Não teria
nenhum medo. [nesse momento ele fez uma pausa retórica]
Você
tem uma sugestão para
Ao
contrário. Quando eu trabalhava em banco, e era estudante
de letras, ficava possesso porque estava jogando meu tempo fora
em vez de estar escrevendo literatura. Esse Patrick pode voltar
a trabalhar no banco porque eu já passei por essa experiência.
Rá
rá rá. [Enquanto ria, lembrei sofregamente que,
sobretudo quando entrevistamos escritores, é uma peleja para
discernir quando eles já disseram tudo, quando querem deixar
a coisa ambígua, ou quando o momento de silêncio é
apenas uma pausa retórica na exposição do raciocínio.]
Qual
a sua sugestão para pensar esse problema de o autor não
conseguir viver de sua obra?
Olha,
aí tem duas coisas. Uma: em qualquer profissão é
complicado. Jovem arquiteto, jovem médico, jovem advogado,
jornalista, costureiro, estilista, todo mundo tem uma certa dificuldade.
A quantidade de pessoas que abrem lojas e fecham é muito
grande. Então há uma dificuldade que no caso brasileiro
se agrava porque estamos em recessão há trinta anos.
Agora, nos países que têm uma estrutura econômica
e social mais estável é possível viver de literatura,
não só através do livro, mas de uma série
de estímulos que governo, fundações e instituições
culturais e fornecem como bolsas e auxílios de pesquisa.
Eu mesmo estive em uma meia dúzia de bolsas dadas por fundações
estrangeiras. A última foi em Bellagio, na Itália.
Eles tinham pago umas vinte pessoas no mundo inteiro para ficarem
um mês, sem nenhuma preocupação, para executar
um projeto, seja um livro, uma pesquisa etc. Tudo pago. Tinha escritores
lá, e eu fui para terminar um livro que eu estava fazendo.
E isso é muito comum na Europa e nos Estados Unidos.
Dá
para adaptar essas idéias no Brasil?
Quando
eu dirigi a Biblioteca Nacional eu criei um sistema de bolsas de
escritores dando umas dez ou quinze bolsas por ano para o escritor
terminar o trabalho dele. Criei o sistema de financiamento de tradução
de autores brasileiros no exterior. Umas trinta ou cinqüenta
obras traduzidas no exterior por ano. Então há mecanismos.
Se você ganhar da prefeitura daqui, ou de uma fundação,
uma bolsa durante um ano ou dois anos para uma pesquisa ou um livro,
você estaria vivendo de literatura.

"Na
Itália, durante os trinta anos em que os Bórgias
estiveram no poder, houve guerra, terror, violência e
assassinatos, mas ainda assim lá surgiram Michelangelo,
Leonardo Da Vinci e a Renascença. A Suíça,
com toda a sua fraternidade e seus 500 anos de democracia e
paz, produziu o quê? O relógio cuco. "
(Diálogo
de Harry Lime, personagem interpretado por Orson Wells no
filme "O Terceiro Homem", baseado no livro de Graham
Greene e dirigido por Carol Reed)
|
Mmmmmm,
seria um sonho! Há escritores que só escrevem sob
pressão, e há mesmo quem diga que a calmaria e a estabilidade
não é criativa. Orson Wells tem disse aquela famosa
frase, dizendo que enquanto a Itália cheia de guerras gerou
a Renascença, a pacata Suíça produziu apenas
o relógio cuco. O que acha disso?
A
questão, outra vez, é diversificada, é complexa.
Há pessoas que só conseguem funcionar, para tudo,
sob pressão. Eu conheço donas-de-casa que resolvem
experimentar em um jantar onde vêm convidados!
pratos que nunca fizeram, sem saber se vai dar certo. A Marina [Colasanti]
é assim.
Rá
rá rá. Muito bom isso.
A
tensão de fazer um negócio que nunca fez, que é
desafiador, mobiliza. Como o ladrão que está correndo
da polícia, ou correndo de um pitbull, ele pula um muro de
cinco metros de altura. Se não tiver o pitbull, ele não
pula nem um metro. Então há pessoas que precisam dessa
adrenalina, outros não. Tive até duas experiências
curiosas com isso. Uma vez eu estava em um programa de jovens escritores
em Iowa, nos Estados Unidos, em uma dessas bolsas. Eram quarenta
escritores do mundo inteiro. Dois terços diziam que não
conseguiam escrever porque tinham saído exatamente de seus
países onde viviam sob pressão, tendo que trabalhar,
cuidar da família, não sei o quê. Ficaram num
lugar só para escrever e não conseguiram escrever.
Eu levei um projeto para escrever, que era a minha tese sobre Drummond,
e fiz a tese normalmente; enquanto um dramaturgo turco, quinze dias
antes de terminar esse período de nove meses, não
tinha conseguido escrever uma linha. Já em Bellagio, onde
fui mais recentemente, eu tinha levado um projeto de ensaio; mas
aquele clima de paz, de beleza, de encantamento era de tal ordem
que eu joguei aquilo pra lá e fiquei um mês só
transando poesia.
Em
Canibalismo Amoroso você desenvolve um conceito muito interessante
ao considerar o texto como uma "manifestação
onírica social". Você poderia falar um pouco sobre
isso?
A
idéia básica desse livro na verdade é
uma idéia básica para se entender a literatura
é que o escritor é uma espécie de sonhador
de utilidade pública. Ele fantasia coisas que não
são apenas fantasias pessoais, mas fantasias comunitárias.
Ele é apenas, como propunha Ezra Pound, uma antena que está
captando algumas coisas. Daí certos livros terríveis,
O médico e o monstro, os livros policiais, etc. Por que as
pessoas lêem isso? Você pode pensar: o autor devia ser
um neurótico. Mas por que milhões de pessoas lêem
Agatha Christie? Porque através do crime e do mistério
elas estão elaborando os seus fantasmas. Então a literatura
e a arte em geral é o lugar de elaboração de
grandes fantasmas de fantasias.
Ops,
eu pulei uma pergunta. Antes de falar de Canibalismo Amoroso eu
queria ter conversado sobre o movimento antropofágico. Depois
da minissérie da Globo, todo mundo comemora a aventura de
Oswald e Mário de Andrade. Apesar de reconhecer a importância
da Semana de 22, sei que você tem críticas ao modernismo.
Você pode falar sobre isso?
Eu
tenho várias considerações. Primeiro, o modernismo
foi muito importante mas cometeu vários equívocos,
várias injustiças. Ensinou uma geração
a ter preconceito contra o século 19, contra certos poetas
parnasianos, simbolistas, contra a literatura romântica, e
isso por um vezo futurista de querer ser diferente do outro. Entende-se
perfeitamente que isso tenha ocorrido num primeiro momento. Agora,
além disso eu tenho uma outra colocação sobre
a Semana de Arte Moderna. É que à rigor ela não
aconteceu em fevereiro de 1922. Ela não só começou
a acontecer muito antes disso, com Brás Cubas, com Sertões
de 1902, com Lima Barreto e por aí a fora, como em 1922 aconteceu
uma certa coisa da qual o país não tomou o menor conhecimento
na ocasião. Mas aquela coisa tinha uma força original
que foi captada por outras pessoas. Então, a Semana da Arte
Moderna começou a acontecer, sistematicamente, depois. Ou
seja, todo autor que estudou um autor modernista é um modernista,
ajudou a fazer o modernismo. Quando alguém analisa Oswald
de Andrade, dá interpretação nova, analisa
Drummond, José Lins do Rego, Jorge Amado, Graciliano, é
como se estivesse batendo esse bolo que está fermentando,
que está crescendo, como se estivesse sendo um acionista
de uma grande empresa. E isso chegou a um ponto tal que virou essa
novela da Globo. Essa novela foi a apoteose popular de uma semana
que continua sendo inventada. O que aparece ali não tem nada
a ver com o que foi em 1922. Ou seja, a idéia da Semana é
uma idéia em construção. Ela não acontece
em 22.
Antropofágica
pra valer!
É.
Então estou devorando a Semana, fazendo uma "meta-antropofagia"
com a Semana. Estou reduzindo ao meu estômago aquela semana
que aconteceu.
Em
seu livro você defende que o canibalismo é um traço
fundamental de nossa cultura. Por quê?
Eu
comecei a colecionar notícias policiais envolvendo canibalismo.
Que é impressionante. Não é apenas essa coisa
imaginária que existe na literatura, ou um ato episódico
dos jogadores uruguaios que caíram na neve e começaram
a comer os companheiros e tal. Isso existe como um impulso neurótico
e Freud consegue explicar de certa maneira essa perversidade oral.
E é muito comum. Ainda agora aquele programa Linha Direta
vai mostrar um criminoso de São Paulo chamado Chico Picadinha,
que pegava as mulheres, sobretudo prostitutas, retalhava, picava
e comia; como aquele canibal alemão que pôs um anúncio
na Internet porque queria comer uma pessoa e, entre vários
candidatos, um se ofereceu realmente e foi devorado por ele. Existe
uma coisa, um desvio, uma perversão que no lado mais ameno
e mais normal se dá numa relação amorosa, que
são grandes "entredevorações".
Sua
pesquisa mostra como que na poesia, do parnasianismo ao romantismo,
a mulher passou a ser representada de flor a fruta, ou seja, de
algo para ser visto a algo a ser comido, do jardim ao pomar. Depois
as metáforas passaram a comparar a mulher a animais que o
homem deveria caçar se quisesse comer. Essa ligação
da culinária e do amor é um traço evidente
do canibalismo amoroso.
Sim,
faz parte desse canibalismo masculino, como existe um canibalismo
feminino. Em alguns animais, alguns insetos, a fêmea é
a devoradora; assim como existe um grande mito no imaginário
masculino, sobre o qual eu falo no Canibalismo: o mito da Vagina
Dentada, o grande medo da grande mãe castradora, como os
folclores todos trabalham isso, e como é que até a
ficção moderna trabalha isso. O José Rubem
Fonseca, por exemplo.
Freud
disse assim: "A grande questão para a qual não
encontrei nenhuma resposta durante trinta anos de pesquisas sobre
a natureza da mulher é a seguinte: o que elas querem enfim?"
Você, marido da Marina Colasanti, já tentou esboçar
alguma resposta para esses enigmas? Por que tememos tanto as mulheres?
O que elsas querem afinal?
Primeiro
porque elas são seres superiores. São adoráveis,
mais inteligentes. Em segundo lugar, existe uma resposta para essa
pergunta do Freud, eu até fiz uma crônica sobre isso,
que é uma parábola sensacional que não vai
dar pra você contar, porque é muito grande, que remete
à lenda do Rei Arthur.
Ah,
pode contar!
Ela
começa quando o Rei Arthur, ainda jovem, invadiu o terreno
de um rei e como punição foi condenado à morte.
E o rei falou que ele só poderia escapar da morte se conseguisse
resolver a seguinte questão: o que querem as mulheres? Há
todo um desenvolvimento disso e a solução que se encontra
é uma coisa maravilhosa. O Arthur contou isso para um colega,
um dos cavaleiros, que disse: Eu vou resolver esse problema
pra você. Eu soube que tem uma bruxa na montanha que tem a
resposta. Esse cavaleiro era belíssimo, inteligente, e então
foi lá no lugar do Arthur e falou com a bruxa. Escuta
aqui, tenho um problema e preciso saber: o que querem as mulheres?
A bruxa falou assim: Olha, eu posso te contar, mas tem o
seguinte: você tem que casar comigo. Só se você
casar comigo eu respondo. E para salvar o amigo, casou com a bruxa.
Vou te contar na noite de núpcias. No banquete a bruxa
estava comendo, toda desgrenhada, sem dente, vesga, jogando comida
no chão e o pessoal se perguntando: pô ele vai casar
com essa mulher? Aí quando ele entrou no quarto nupcial,
perguntou: Bom, então me diz agora, finalmente! Estamos casados!
A bruxa disse o seguinte: Eu vou te fazer uma revelação.
Eu sou bruxa de dia, mas de noite eu sou outra pessoa. E se transformou
numa mulher deslumbrante, a mulher mais deslumbrante que qualquer
homem pode imaginar, nem precisa descrever, cada um descreve a sua.
E apareceu aquela mulher! Na alcova do cavaleiro! E aí a
bruxa transformada na bela mulher disse: Mas você vai
ter que decidir com qual de nós duas você quer ficar,
a bruxa ou essa deusa. Aí o cavaleiro, como era um cavaleiro
mítico, um herói, de caráter sem jaça,
um sábio, disse para ela: Você decide. Você
é que decide quem você quer ser. Então o resultado
dessa melódia é: o que querem as mulheres? As mulheres
querem ser o que elas querem ser, e não o que os homens querem
que elas sejam.
Fale
um pouco sobre as estratégias compensatórias pelas
quais driblamos nossas frustrações, um assunto que
explora bem em sua obra.
O
imaginário humano é muito rico, ele desliza muito.
Há um princípio básico da psicanálise
que continua válido até hoje porque na verdade corresponde
até a uma lei da Física e da Química: assim
como Lavoisier disse que tudo se transforma, em termos de psicanálise
e inconsciente Freud mostrou, entre outras coisas, que nós
não suportamos nenhuma frustração. Nós
não abrimos mão das coisas; nós substituímos.
Então o nosso imaginário vive fazendo substituições.
Se você não pode ter uma coisa, troca por outra, consciente
ou inconscientemente, dentro de um jogo que a psicologia chama de
redução da dissonância cognitiva. Você
quer casar com uma mulher, ela não gosta de você, mas
você casa com outra, em outras circunstâncias. Mas você
tem que "justificar" aquele casamento. Então você
diz: casei mas ela é rica né? Ela me dá tudo,
e tal, eu não preciso trabalhar... Tem que ter alguma vantagem!
Eu trabalho naquela empresa ali, eu não gosto muito não,
mas me pagam muito bem. E assim por diante. Então isso existe
em relação a tudo. A parte erótica, a parte
amorosa, social, econômica...
Proust
dizia que muitas vezes o escritor só encontra a sua verdadeira
personalidade no texto. Será que isso explica o fato, por
exemplo, de uma pessoa escrever coisas maravilhosas, humanistas,
mas na vida real ser um crápula, um monstro?

Fernando
Pessoa não inventou nada de extraordinário. Ele
apenas contextualizou uma esquizofrenia que todos nós
temos. |
Nós
temos várias pessoas dentro de nós. Fernando Pessoa
não inventou nada de extraordinário. Ele apenas contextualizou
uma esquizofrenia que todos nós temos. Balzac criou tantos
personagens que diziam que ele estava fazendo concorrência
com os cartórios, de tanta gente que ele tinha criado. Ele
era todas aquelas pessoas e também não era. Então
o escritor é isso. Aliás isso é até
terapêutico. Inclusive no teatro eu acho que isso é
mais terapêutico ainda. Quando você faz psicanálise,
às vezes você pode entrar para a terapia de grupo.
Você vê nos seus colegas uma série de reflexos
seus que te ajudam. Então você pode tratar-se através
do psicodrama, cada um representa uma série de obsessões,
de fobias, de fantasias e põe aquilo para fora em termos
de catarses que exorcizam. Um ator um dia representa um amante,
um dia um assassino, um dia um pai, um dia um filho, empregado,
patrão, ele está exercendo um universo dentro dele
terapêutico incrível. E o leitor é isso também.
O leitor vai encarnando. O espectador de celebridades é a
mesma coisa. A pessoa que está vendo Darlene queria ser também
célebre, condena a Darlene por uma série de ações,
mas também fica meio siderada com a fama. Há uma transferência.
Você
que é um pensador do amor, responda aí essa última
pergunta, inspirada em Saint-Exupery: somos responsáveis
por aqueles que nós cativamos?
De
alguma maneira sim. Mas a sua relação com alguém
nessa troca de emoções, de afetos, de conhecimento,
deve também fazer com que o outro cresça, que o outro
não seja um dependente, de tal maneira que haja uma relação
de maturidade, uma relação adulta. O outro não
deve ser tratado nunca como uma criança, mas com respeito.
E vice-versa.
Affonso
Romano de SantAnna, muito obrigado pela entrevista. Foi um
grande diálogo e certamente vai inspirar muitas idéias
nos leitores.
Muito
bem, doutor. Você está frito para transcrever isso
tudo.
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